• Francisco Toledo

Uma tarde muito louca com bolsonaristas na Av. Paulista

O ato em celebração do dia 7 de setembro, convocado por grupos de extrema-direita em São Paulo nesta segunda-feira, tinha tudo para ser mais um repeteco do que já havia acontecido em manifestações anteriores: discursos contra o governador João Doria (PSDB), contra o esquerdismo, globalismo e afins. Mas as poucas centenas de pessoas que compareceram ao ato entregaram muito mais do que isso.


Para começar pelo discurso de Marcos Bellizia, ex-porta voz do grupo Nas Ruas. Ele foi um dos alvos da Polícia Federal no inquérito das Fake News, deflagrado em maio deste ano. Ao se defender das acusações no carro de som, o bolsonarista se utilizou de um poema do pastor Martin Niemöller, perseguido pelo governo de Hitler na Alemanha nazista:

"Primeiro eles levaram os comunistas e eu não protestei porque eu não era comunista. Depois levaram os sindicalistas, e eu não protestei porque não era sindicalista. Depois eles vieram pelos judeus, e eu não protestei porque não era judeu. Então eles vieram por mim, e já não havia ninguém para protestar por mim."

Enquanto falava, o público formado por manifestantes que, em sua maioria, entendem comunistas e sindicalistas como a escória da sociedade, pareciam não entender muito bem e aprovar o que Marcos dizia. "Chega de falar", gritava uma senhora ao meu lado.

Emocionado, o bolsonarista proclamava um poema em defesa dos comunistas na Paulista - Foto: Wesley Passos / Democratize

Outro detalhe importante da estética bolsonarista foram os enfeites colocados no carro de som. Para celebrar a independência do Brasil, bandeiras dos Estados Unidos e Israel não faltavam, além de outra com a mensagem: "Trump 2022".


Por mais que o poema citado por Marcos tenha defendido comunistas e sindicalistas, o espírito do ato seguia claramente de ódio contra a sua oposição. Um jovem caminhava pelo quarteirão com sua guitarra nas costas e a singela mensagem em sua camiseta: "Mate um comunista para mamãe". Ele ainda nos explicou, calmamente, todo o contexto por trás daquela mensagem, que havia sido criada como propaganda de ódio contra comunistas durante a Guerra do Vietnã. A história mostrou que não deu muito certo: a revolução comunista colocou as tropas yankes para correr. Ao final ele pergunta: "Vocês viram o Paulo Kogos?" - famosa celebridade anarco-capitalista da Internet.


Não demorou muito para encontrarmos o mesmo jovem ao lado do seu ídolo, com outros adolescentes ao redor da dupla. Kogos, que aparentemente começou a malhar - segundo suas próprias palavras -, pedia para os jovens que o abordavam para tirar a máscara. Uma invenção chinesa, dizia. Os adolescentes o obedeciam, enquanto tiravam selfies com o filho Ligia Kogos, famosa dermatologista das celebridades e mais poderosas autoridades de São Paulo.

Falando em mensagens, não é possível deixar de mencionar a criatividade abundante dos bolsonaristas em relação aos seus cartazes.


Vários manifestantes carregavam mensagens contra o 5G da Huawei, empresa multinacional de tecnologia e telecomunicações da China. Inclusive, os chineses foram alvo preferencial de boa parte do discurso e das mensagens bolsonaristas nesta segunda-feira. Enquanto uns criticavam a tecnologia 5G, outros clamavam pelo boicote da vacina produzida pelo Instituto Butantan em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech.


É claro que a crítica contra os chineses acabava quando os mesmos manifestantes encontravam um shopping aberto na Paulista com lojas que, em sua maioria, são de chineses vivendo no Brasil. Era possível ver várias camisetas da CBF caminhando pelo estabelecimento, na busca por tripés e outros acessórios para câmera.

Outro manifestante parecia não estar tão disposto a criticar os chineses, mas sim a promover o seu movimento: Clodovil Presidente. Com uma camiseta preta estampando a mensagem e o rosto de seu ídolo, um "verdadeiro conservador" em suas palavras, o rapaz dizia não ter ligação alguma ao movimento LGBT, apesar do falecido apresentador de TV ter sido um gay declarado.


Outra pessoa que não parecia mais encaixar tão bem no grupo bolsonarista era a deputada federal Carla Zambelli (PSL). Ao subir no carro de som para o seu discurso apaixonado, a ex-feminista foi alvo de algumas vaias dos manifestantes. Uma senhora dizia ao meu lado: "Traira! Traira!", enquanto a deputada dava indiretas contra a sua ex-aliada, a também congressista Joice Hasselmann. Sobrou espaço até para um bordão esquerdista no carro de som:

Como a esquerda diz, traidores não passarão!
Foto: Wesley Passos / Democratize

Todavia, nem tudo foi alegria neste 7 de setembro.


Uma contra-manifestante, mandada por sindicalistas - segundo os bolsonaristas -, invadiu o protesto em defesa do presidente Jair Bolsonaro. Em um verdadeiro festival de bizarrices, a mulher foi hostilizada até a Polícia Militar ser obrigada a retira-la de lá. No meio do caminho sobrou para a imprensa: os três fotógrafos que estavam cobrindo o ato, incluindo o nosso Wesley Passos, foram ameaçados de agressão e hostilizados pelos defensores do ex-capitão do Exército.


"Trabalhando porra nenhuma", gritava um deles para a imprensa. Os bolsonaristas reclamavam que os jornalistas estavam registrando o ocorrido, acusando a imprensa de parcial e de comunistas. "Vocês vão resumir a nossa linda manifestação à isso", diziam. Como vocês podem ver, a nossa reportagem foi muito além desse espetáculo de horror e censura.


Após uma breve conversa com policiais a situação se apaziguou. Conseguimos finalizar os trabalhos depois de uma bela - e esquisita - tarde de sol em São Paulo. Mas ainda sobrou tempo para mais uma bizarrice de despedida: um carro de som com três pessoas passava pela outra via da avenida. Um homem com o microfone gritava:

Bolsonaro não é a solução! Jesus é a solução! Jesus é a solução!

Era possível ver a tela azul na cabeça dos manifestantes que, automaticamente, vaiaram massivamente o outro carro de som, que eventualmente foi abordado e multado por policiais militares.


Ao final do dia foi possível, enfim, sair com a conclusão: para os presentes, Bolsonaro é a solução. Essa coisa de Jesus Cristo tá fora de moda demais.


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