• Francisco Toledo

Uma das maiores ocupações do Brasil resiste ao coronavírus

No dia 29 de novembro de 2013, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) ocupou um imenso latifúndio urbano na região do Jardim Ângela, na zona sul da cidade, com cerca de duas mil pessoas. O terreno escolhido para a ocupação tem um milhão de metros quadrados e se trata de um trecho do cordão verde da represa Guarapiranga enquadrado como Zona de Proteção e Desenvolvimento Sustentável; sendo assim, somente 10% do espaço poderiam ser utilizados para moradia. Cerca de 7 anos depois, após enfrentar mudanças de poder na esfera municipal, estadual e nacional, a Nova Palestina agora enfrenta um novo inimigo: a pandemia de Covid-19 que se espalha pelo estado, com maior alcance nas regiões periféricas.


A nossa equipe de reportagem atravessou a zona sul de São Paulo até chegar na ocupação. O contraste entre centro, bairros nobres e a periferia é notável, escancarando a diferente abordagem do poder público em relação ao coronavírus de região em região. Lojas cheias, pessoas sem máscara, estabelecimentos abertos, como se fosse um dia comum no Jardim Ângela. No trajeto era possível ver policiais caminhando pelas ruas, sem qualquer tipo de abordagem sobre o uso agora obrigatório de máscaras, sendo passível a aplicação de multa para quem não utilizá-las.


Ao chegar na ocupação a situação muda. No local que é considerada uma praça central da ocupação pelos moradores, uma placa avisa: "Bacurau aqui. Se for, vá na paz". Dentro de um espaço feito com lonas e madeira, fomos recebidos por Jussara, uma das lideranças da Nova Palestina. Segundo ela, uma parceria com a ONG Médicos Sem Fronteiras possibilitou diversas ações de conscientização para os moradores da ocupação. Ao menos 6 pontos de higienização foram espalhados pelo terreno de 400 mil metros quadrados, além de 250 kits de sabonetes, cem mil litros de álcool em gel e 1.500 máscaras de tecido que foram distribuídos para os moradores. A produção das máscaras ocorreu por parte da própria militância.

Foto: Wesley Passos / Democratize

Para caminhar pelas ruas da Nova Palestina tivemos como guia Israel, militante do MTST. Ele nos conta sobre a situação da ocupação durante a pandemia, com doações e distribuição de marmitas para quem necessita. Para algumas pessoas, o auxílio emergencial do governo federal não chegou. "Eles seguem na espera", diz Israel, que participou da Ocupação Copa do Povo, localizada na região leste da capital durante a realização da Copa do Mundo, em 2014, ao lado do estádio do Itaquerão.


Israel também é membro da torcida organizada Gaviões da Fiel, de torcedores do Corinthians. Foi ele um dos responsáveis por trazer o grupo para dentro da comunidade. Assim como alguns torcedores do clube, o militante sem-teto também participou dos protestos pela democracia em São Paulo, que ocorrem desde o final de maio em contraponto aos atos pró-Bolsonaro.


A relação com o poder público


Quando questionado sobre a atuação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Israel diz que o movimento "vai forçando, forçando, forçando... mas não tá nada fácil não". O discurso negacionista por parte do presidente já se refletiu sobre alguns moradores das ocupações do MTST, mas a resistência política continua. "Quando o Bolsonaro disse que acabaria com o programa Minha Casa Minha Vida, nós já sabíamos que precisávamos de um Plano B", diz, ao falar sobre uma nova estratégia na busca por teto no país.

Foto: Wesley Passos / Democratize

Mas a relação com o poder público não é, ao todo, uma tragédia. "Nós temos a massa, não adianta fechar as portas", nos diz sobre a situação de diálogo com a prefeitura da capital. Israel diz que a militância acreditava que a relação com o atual prefeito, Bruno Covas (PSDB), não seria fácil. Mas foi diferente: o tucano chegou a confirmar uma visita à Nova Palestina, que foi cancelada apenas por conta do diagnóstico de sua doença. Mesmo assim, Covas chegou a enviar um secretário para falar diretamente com os moradores em assembleia.


Até mesmo a relação com a Polícia Militar mudou, de sete anos pra cá. Apesar de no começo existir uma tensão e a possibilidade de reintegração do terreno, no momento a existência de um diálogo ativo com o proprietário do espaço ajuda: "Aquela pressão constante já não existe mais", diz.


Ao atravessarmos o terreno, Israel aponta para uma casinha. Lá era a residência do caseiro, que faleceu e deixou o espaço para sua filha, que vive um embate direto com o proprietário. Ele pontua: "A briga dela não é conosco, e sim com o dono do terreno".


A relação com o bairro e a periferia


Não foi fácil construir uma relação saudável com as comunidades no entorno da ocupação, lamenta o militante sem-teto para a nossa equipe. Mas isso mudou: "Começou ruim, mas melhorou com as ações do MTST em relação à infraestrutura da região". Além disso, a Nova Palestina sempre deixou as suas portas abertas para os moradores da região quando realizava shows, saraus e ações culturais antes da pandemia. "As pessoas saem daqui com outra visão", diz.


O MTST também chegou a participar da revitalização de ao menos cinco praças nos entornos da ocupação. "Se vocês se organizarem, vocês cuidam do que é de vocês", diz Israel.


O movimento também participa e apoia outros grupos organizados na periferia, como é o caso da favela do Paraisópolis. Sem a devida atenção do poder público, os moradores da região se organizam de forma voluntária na defesa da comunidade contra o coronavírus, algo similar ao que ocorre nas ocupações do MTST. Só na Grande São Paulo, são 30 ocupações do MTST, sendo duas em terrenos - Nova Palestina e outra na cidade de Guarulhos.

Nossa equipe caminha pela ocupação ao lado de Israel - Foto: Wesley Passos / Democratize

A organização em tempos de pandemia


Com a pandemia de coronavírus se alastrando pelas cidades do Brasil, tanto o MTST quanto a ocupação Nova Palestina readequaram a forma de organização de sua militância. As assembleias, que determinam os próximos passos da ocupação, ocorrem de forma virtual mensalmente.


Em todo o país são, ao menos, 60 mil famílias cadastradas pelo MTST participando de ocupações. Na Nova Palestina vivem cerca de 205 famílias.


A ocupação é organizada em três brigadas, criadas com o intuito de ajudar na organização e distribuição de tarefas. "É uma escola para muitos militantes", diz Israel. Dos moradores, alguns participam da chamada trilha, grupo escolhido para monitorar a segurança da ocupação no período noturno. "Alguns evangélicos circulam durante a madrugada no meio da mata para fazer oração", diz Israel para a nossa equipe. "Meio apavorador, mas né... (risos)".


Já no final da caminhada, Israel nos mostra um dos barracos da ocupação. Nele, residia um senhor de idade que acabou por falecer de Covid-19: "Ele saiu da ocupação no começo da pandemia para se isolar, mas acabou falecendo", lamenta.


Desta forma, a Nova Palestina segue resistindo contra os avanços de políticas privatizantes do poder público, além da pandemia. Similar ao que ocorre em Paraisópolis, o temor da doença avançar na periferia existe, mas a organização promete mais uma vez resistir.


Veja as fotos do nosso fotógrafo Gustavo Oliveira.


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