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Trabalhadores relatam as dificuldades enfrentadas no transporte coletivo durante a pandemia

Reportagem especial de Camila Borges para o Democratize


O alarme do celular, programado para despertar às 05h40 da manhã, ecoa no quarto antes mesmo do nascer do sol. Ainda é noite quando a psicopedagoga Karine Alves, de 25 anos, levanta da cama e troca o pijama pelos trajes formais utilizados em seu ambiente de trabalho. Sem tomar café, a jovem se despede do marido e segue em direção à principal avenida do Jardim Bela Vista, em Guarulhos, para pegar o primeiro ônibus rumo ao Hospital Ipiranga, no município de Arujá. O percurso, que ao todo dura aproximadamente duas horas, é realizado com uma série de cuidados, reflexo dos hábitos adquiridos durante à pandemia do novo coronavírus.


A primeira parada é na rodovia Presidente Dutra, importante via de acesso que interliga Guarulhos à capital paulista e à outras cidades da região metropolitana do estado. Após desembarcar, Karine aguarda a chegada do segundo ônibus, que tem como destino final o distrito arujaense. Ao longo do trajeto, algumas estratégias são adotadas para permanecer distante dos demais passageiros e evitar o contato com os componentes internos do veículo. “Tento não encostar nas pessoas e busco não pegar nas barras de apoio”, explica. Esse comportamento é repetido por milhares de trabalhadores brasileiros que, assim como a jovem guarulhense, não tiveram o home office como alternativa.


Segundo os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), o Brasil possui 93 milhões de pessoas empregadas. No entanto, apenas 13% dos assalariados puderam recorrer ao trabalho remoto, percentual considerado abaixo do projetado pelos pesquisadores, que estimavam ser possível aplicar a modalidade em 22% das ocupações no país. Profissionais que atuam nos chamados serviços essenciais como saúde, comércio e segurança pública, fazem parte da ampla parcela que enfrenta diariamente as incertezas de um mundo que segue em alerta.


A rotina da vendedora Ana Caroline Pereira de Araújo, de 25 anos, que trabalha no Internacional Shopping Guarulhos, também sofreu uma drástica mudança. Após três meses afastada de suas funções por conta do isolamento social, a profissional encara as dificuldades da readaptação. “Tem sido difícil se acostumar e fazer os clientes entenderem o porquê de usar a máscara dentro da loja ou de não poder fazer prova de roupa”, relata. Apesar de todas as precauções, a jovem afirma não se sentir protegida. “Eu posso tomar cuidado para não me infectar, mas trabalho com o público e nem todo mundo se importa se vai pegar ou passar. Isso me preocupa bastante”.


De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Secretaria Estadual de Saúde, Guarulhos ocupa a 7ª posição no ranking de casos por municípios. Até o momento, aproximadamente 18 mil habitantes testaram positivo para a Covid-19 e mais de mil pessoas vieram a óbito após não resistirem à doença. Quem vive na segunda cidade mais populosa do estado e precisa se deslocar em direção à capital por meio do transporte coletivo, admite que não é possível manter o distanciamento mínimo recomendado por especialistas. A auxiliar administrativa Natália Pereira, de 25 anos, mora no Jardim Acácio, localizado a poucos quilômetros do Aeroporto Internacional de Cumbica, e trabalha no Bom Retiro. Para chegar ao trabalho é necessário sair com duas horas de antecedência, pegar dois ônibus e um metrô até a estação Santa Cecília. “Uso máscara e sempre passo álcool em gel, mas não me sinto segura. Até uns dois meses atrás as coisas estavam mais tranquilas, mas agora está tudo lotado, é um risco”, desabafa.


Com a flexibilização das medidas de isolamento social, o número de pessoas circulando nas ruas aumentou. Esse crescimento, perceptível aos olhos da população, foi registrado pela Secretaria de Transportes e Mobilidade Urbana de Guarulhos. Antes da pandemia, cerca de 10 milhões de passageiros utilizavam as mais de 100 linhas municipais, mas durante o mês de abril, período mais rígido da quarentena, apenas 4 milhões usufruíram desse meio de locomoção. Ainda de acordo com a pasta, a demanda atingiu mais de 6 milhões de usuários em agosto.


Para Karine, que atua no setor de infectologia do hospital, a vontade de aderir à modalidade de trabalho remoto é imensa. “Se eu pudesse trabalhar em home office eu aceitaria, pois morro de medo de pegar a doença, mas não tem como exercer minha função em casa”, complementa. Enquanto os testes e estudos para a produção da vacina não são concluídos, resta à população seguir às medidas de combate ao vírus.

Camila Borges, 24 anos, é estudante do 8º semestre de Jornalismo pela Universidade São Judas Tadeu. Há dois anos atua como estagiária no SBT, com passagens pelos departamentos de Escuta e Apuração, Chefia de Reportagem e Produção de Conteúdo Digital.

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