• Francisco Toledo

Torcidas protagonizam protestos pela democracia e contra Bolsonaro

A cultura de paz nos estádios, tão promovida pelo poder público nas últimas décadas, ganhou as ruas de uma forma diferente neste ano de 2020 em São Paulo.


Se as diferenças entre as torcidas são gritantes pelo seu histórico de rivalidade no futebol, eles parecem ter encontrado um inimigo em comum: o presidente Jair Bolsonaro (sem partido). E por isso tomaram o protagonismo dos protestos pela democracia em São Paulo neste último domingo - o terceiro seguido de manifestações de oposição na capital.


Apesar de outros movimentos terem marcado presença, como o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e partidos políticos de esquerda, o destaque partiu dos torcedores do Palmeiras, Corinthians e São Paulo. Mesmo afastados na Av. Paulista por divergências futebolísticas, eles foram o destaque da cobertura midiática deste domingo.


Se por um lado foi enaltecida a união entre as torcidas contra um inimigo em comum, por outro um início de confronto entre os torcedores destacou uma pergunta que precisa ser feita: quais são os aspectos positivos e negativos de tal protagonismo diante dos atos pela democracia?



Torcedores do Palmeiras chegando ao Masp - Foto: Wesley Passos / Democratize

Os torcedores de ambos os clubes fazem questão de afirmar que as tradicionais torcidas organizadas, como a Gaviões e a Mancha Verde, não aderiram aos atos. Por isso, eles se organizam de forma paralela entre coletivos e grupos antifascistas. São eles: a Democracia Corintiana, principal movimento político dos torcedores do time da Zona Leste; e o Porcomunas, um dos coletivos de palmeirenses que marca presença nas manifestações desde o seu início no mês de maio.


O seu poder de alcance político é o principal aspecto positivo. O futebol, esporte de maior relevância nacional, sempre flertou com questões sociais no Brasil - e não é de hoje. As torcidas possuem maior alcance nas classes mais baixas das grandes metrópoles, e sua politização cada vez mais estruturada pode significar um maior interesse de jovens da periferia na causa política e na luta por melhores condições sociais. Trata-se de algo que movimentos estudantis batalham diariamente para conseguir no Brasil - e quase nunca o fazem, com exceção dos secundaristas.

Guilherme Boulos marcou presença no ato - Foto: Wesley Passos / Democratize

Outra liderança política que tem colocado em prática a democratização do debate político é Guilherme Boulos, ex-candidato para a presidência em 2018 pelo PSOL. Mas é diferente: os movimentos de torcedores demonstra menor preocupação com lideranças ou uma organização unificada.


O líder sem-teto parece ter entendido a nova dinâmica política das ruas neste domingo. Ao invés de discursar no carro de som, preferiu ficar no chão com os demais manifestantes, em contraste com o protesto no Largo da Batata.


Por outro lado, é necessário estar atento nos possíveis aspectos negativos desse protagonismo.


Após o encerramento do ato neste último domingo, um bate-boca entre torcedores do Corinthians e Palmeiras ocorreu na entrada do metrô Brigadeiro. A Polícia Militar já se preparava para reprimir ambos os grupos, quando alguns manifestantes conseguiram separar e evitar o confronto.


Afinal, será possível driblar as divergências no futebol por uma causa em comum? Pois um confronto entre as torcidas mostraria para a opinião pública que esses torcedores ainda não estão prontos para debater, ou até mesmo dialogar, sobre uma questão tão séria que afeta a vida de milhões de brasileiros - sendo eles torcedores do Corinthians, Palmeiras, Santos, São Paulo, Flamengo, e todos os outros clubes.


De qualquer forma, os protestos pela democracia já mostraram para a extrema-direita que eles são minoria nas ruas. Ontem, na Avenida Paulista, cerca de 3 mil pessoas marcharam em um domingo gelado. No centro da capital ocorria de forma simultânea o ato bolsonarista, com ao menos 50 manifestantes.


Resta saber quais serão os próximos capítulos nas ruas, enquanto a pandemia avança para o absurdo número de 1 milhão de infectados em nosso país.


Veja as fotos do nosso fotógrafo Gustavo Oliveira:


E também as fotos do nosso fotógrafo Wesley Passos:



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