• Gustavo Oliveira

Tive medo de morrer, não é uma gripezinha

Em mais uma série especial, o Democratize buscou relatos de pessoas que contraíram o coronavírus no Brasil. Ouvimos o drama da assistente social Cintia Oliveira, assistente social de São Paulo.

Meu nome é Cintia Gisele Oliveira dos Santos, tenho 24 anos de idade, sou moradora do bairro Jardim Irapiranga, zona sul de São Paulo. Trabalho no Serviço de Assistência Social à Família, o SASF Cambuci.


Antes de mais nada, quero dizer que antes de a pandemia do coronavírus aparecer por aqui, eu e o meu marido já éramos germofóbicos. Sempre tivemos os devidos cuidados, lavamos as mãos, tínhamos o hábito de carregar o álcool em gel na bolsa, sempre mantemos a casa limpa e arrumada. Isso sempre foi normal aqui em casa.


Como muitos brasileiros, eu também não tenho certeza de como fui contaminada pelo vírus, não sei se foi no meu trabalho, não sei se foi no meu trajeto para o trabalho ou se foi através do meu marido.


A minha suspeita é de que foi através do meu marido, porque na empresa dele ocorreram casos de pessoas infectadas pelo vírus, então é uma suspeita plausível.


Nós dois trabalhamos com serviços considerados essenciais, eu na Assistência Social e ele numa distribuidora de alimentos. Mesmo que pra ele o trabalho remoto fosse uma opção possível, foi recomendado que ele trabalhasse na sede da empresa porque segundo seus superiores facilitaria a comunicação.


Foto: João Damasio

Quando sentimos os sintomas, não acreditamos no primeiro momento que seria corona-vírus. Pensamos ser apenas um resfriado forte, o que fez com que seguíssemos nossas rotinas de trabalhos e domésticas e, claro, mantendo o isolamento social e usando a máscara para tudo que íamos fazer.


Eu notei que os sintomas da COVID-19 se manifestam de maneiras diferentes, eles variam bastante de pessoa pra pessoa. Meu marido só teve o sintoma de Anosmia que é a perda de olfato.


Diferente de mim, que tive vários sintomas, dor de cabeça, dor no peito e nas costas, fadiga, calafrios, tive uma sensação horrível de inflamação na garganta e no nariz – Senti uma ardência terrível no nariz e na garganta, e essa ardência no nariz fez com que eu sentisse dificuldade para respirar, eu enxia o peito inspirando mais o ar não adentrava os pulmões, esse sintoma de falta de ar durou três longos dias.


Eu fui me dar conta e perceber que poderia ser coronavírus em uma conversa no trabalho, quando uma amiga disse que o sobrinho havia perdido o paladar e tinha sido diagnosticado positivo para a doença. Foi ai que eu resolvi buscar ajuda médica.


Na UBS (Unidade Básica de Saúde) do Cambuci recebi o diagnóstico SID-P-342 INFECÇÃO POR CORONA-VÍRUS NÃO ESPECIFICADA. Eu recebi o diagnóstico clinico, segundo a médica que me avaliou, e a unidade não tinha testes para todos.


Foto: João Damasio

Quero ressaltar que pelo fato de eu ter ido na UBS buscar atendimento, talvez eu tenha entrado nas estatísticas do Ministério da Saúde. Mas meu marido não buscou ajuda médica, não está nos números oficiais dos contaminados. Isso me faz pensar que os números oficiais estão muito defasados, e que o número de contaminados é muito maior do que o divulgado, isso é preocupante.


Eu não precisei ficar internada, foi me recomendado apenas paracetamol para dor e febre. Também não me foi oferecido tratamento à base de Cloroquina.


Eu recebi muita receita caseira em grupos de conversa, principalmente no WhatsApp, muita gente me mandou vídeos e reportagens fakes com dicas milagrosas de como curar o coronavírus.


Eu tive muito medo, é uma doença muito agressiva, não é só uma gripezinha como dizem. Eu sou uma pessoa jovem, saudável, não tenho nenhum problema de saúde. O nível de agressividade dos sintomas me assustou, tive medo de morrer, não vou mentir. Tive medo também de contaminar outras pessoas, não só minha família, mais no ambiente de trabalho. Lá atendemos muitos idosos e eu tinha medo de contamina-los.

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