• Gustavo Oliveira

Sem direito ao auxílio emergencial, trabalhadores da reciclagem se organizam

Nascido embaixo do viaduto do Glicério, centro de São Paulo, o catador de reciclagens Carlos Antônio dos Reis, 52 anos, conhecido nas ruas da capital como Carlão da Reciclagem, recebeu a equipe de reportagem do Democratize em seu local de trabalho, uma Topique ano 98, que junto dela, cortam as ruas e avenidas do centro expandido em busca de lixo reciclável.


Carlão conhece todos os seus clientes pelo nome. e de ponto em ponto de coleta ele e o companheiro José Carlos Tertuliano (Zé), de 54 anos, esbanjam carisma e simpatia por onde passam.


Nossa reportagem encontrou com a dupla de catadores na rua Harmonia, no bairro da Vila Madalena, zona oeste, em frente a uma grande sorveteria que separa o material reciclável para que Carlão e Zé Carlos os recolha.


Carlão nos conta que quando crise do coronavírus chegou à São Paulo a ordem para os catadores era de que parassem as atividades para que eles não ficassem expostos ao vírus, porém a classe não teve sequer o direito de receber o Auxilio Emergencial de R$600,00 reais pagos pela Caixa Econômica Federal, que fora aprovado por parlamentares do Congresso – “Só pra você ter uma ideia, são 19 famílias, por traz dessas famílias são 54 pessoas que sobrevivem exclusivamente da reciclagem. Como iriamos parar se por traz existem mulheres e crianças que dependem da gente, parar não era opção”.


Campanha da Panela Velha


Dos 54 catadores, 12 deles estão parados em casa. Segundo Carlão, são pessoas que estão no grupo de risco e não estão fazendo a coleta de recicláveis para não ficarem expostos ao vírus. São 12 trabalhadores que também não tiverem o acesso ao Auxilio Emergencial e, como forma de solidariedade, o Carlão junto com a Cataki criou a campanha da Panela Velha.


Pergunto ao Carlão o que é a Campanha da Panela Velha – “Eu peço para a pessoa que compraram a ideia da Campanha separar tudo o que for reciclável por um período de 10 dias, passados os 10 dias, a pessoa me liga e eu vou até o local para retirar e peço uma ajuda de R$30,00 reais".

Mulher que ajudou na campanha agradece ao Carlão - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Carlão, com sorriso no rosto, segue a contar – “O primeiro mês foi tão bom que as 19 famílias de catadores conseguiram receber R$630,00 reais, beneficiou quem estava em casa sem trabalhar e nós que não paramos e seguimos na luta”.


Com a Campanha da Panela Velha, Carlão juntamente com a Cataki derrubaram os muros que separavam a sociedade dos catadores que rodam pelas ruas e avenidas de São Paulo. Por meio da campanha, Carlão conseguiu fidelizar os seus clientes e como forma de agradecimento deixa um pacote com 5 máscaras que foram produzidas por costureiras autônomas no Bairro Jd. Romano, zona leste de São Paulo.


O trabalho dos catadores hoje é essencial para toda a sociedade, pois o que pra muita gente é lixo para esses trabalhadores é a garantia de sobrevivência; e sabendo disso Carlão diz – “No mundo teve várias febres, teve a febre do ouro verde, o café; teve a febre do ouro branco, que é o algodão; a febre do ouro negro que é o petróleo; e várias outras febres que as pessoas enriqueceram, mas as febres passaram, quem enriqueceu de café, hoje em dia não enriquece mais, quem enriqueceu de algodão, também não enriquecera mais. Mais a febre do lixo, lixo entre aspas né, porque nada é lixo, essa sim veio pra ficar porque nós catadores em todos esses anos, somos a única categoria que viu que o resido da dinheiro”.

“E agora as grandes empresas, a elite estão ai se aproveitando disso, e nós a classe pobre mais uma vez estamos sendo deixados de lado”.

Em uma de nossas paradas para coleta na casa de um apoiador da campanha da Panela Velha, no bairro da Santa Cecilia, pergunto a Fabiano de Freitas, 36 anos, como ele descobriu o Carlão Catador, que me diz – “Na verdade os telefones devem estar circulando, porque eu coloquei num grupo e amigos no WhatsApp se alguém sabia de alguém que retirasse materiais recicláveis, e ai me apareceu esse número. Então acredito que esse número dele está começando a circular, o que é importante né, esse material precisa circular, isso gera emprego e renda pra muita gente”.


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