• Gustavo Oliveira

Sem ajuda do Estado, Paraisópolis se tornou modelo no combate a Covid-19

Exatos dois meses atrás estivemos na comunidade do Paraisópolis, no bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo. Acompanhamos a grande estrutura montada pela Associação dos Moradores e Comerciantes do bairro para combater a proliferação do coronavírus; de produção de máscaras à entrega de marmitas para os mais necessitados. A Associação contava com o empenho de duas ambulâncias para socorrer os infectados assim, como uma escola foi transformada num ponto de isolamento para quem fosse diagnosticado com a Covid-19.


Dois meses após a nossa reportagem ter visitado o Centro de Gerenciamento de Crise montado por Gilson e sua equipe, nossa equipe voltou e constatou o porquê do Paraisópolis se tornar referência no combate a pandemia.


Ao chegar no Centro de Gerenciamento de Crise percebo mudanças. Assim que adentro o estacionamento, um funcionário da União dos Moradores me aborda e faz o aferimento da minha temperatura. É Clayton Dias Rodrigues, 48 anos. O voluntário faz o registro de quem entra e quem sai, não passa ninguém – “Tem que cuidar né, trabalham muitas pessoas aqui, precisa ter controle pra ninguém se infectar” diz Clayton.


Após o aferimento da temperatura na entrada, percebo o aumento no número de voluntários, são dezenas de pessoas costurando máscaras, dezenas de pessoas cozinhando e uma tenda no mezanino me chamou a atenção, com jovens trabalhando freneticamente munidos de internet e notebooks fazendo os cartões para retirada da cesta básica e mapeando a comunidade para facilitar o trabalho na hora de fazer a entrega das doações.


Por volta das onze horas da manhã, uma extensa fila começa a se formar; são os moradores e presidentes de rua aguardando a liberação das marmitas. Antes a entrega era feita pelos presidentes de rua de casa em casa, agora os presidentes de rua retiram as marmitas apenas para os moradores tidos como grupo de risco; e a demais população faz a retirada de sua marmita presencialmente.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Na cozinha, a produção não para. São 1.600 marmitas sendo produzidas diariamente, além das outras 1.200 que são entregues pelo SESI; pergunto a uma moradora que aguardava na fila para retirar sua marmita sobre a importância desse trabalho de distribuição – “É muito bom né meu filho, eu comecei a receber o Auxílio do Governo tem um mês e meio, se não fosse esse trabalho feito pelo Gilson eu teria morrido de fome. Ninguém olha por nós favelados”. Me conta dona Arlete Pereira, 57 anos, moradora do Paraisópolis há pelo menos 39 anos.


A grandeza da estrutura é massivamente visitada pela imprensa tradicional e independente. Gilson pediu que fosse reservado um cantinho, ou uma sala de imprensa com a estrutura de internet e pontos de energia pro pessoal trabalhar. Uma equipe de TV também fazia uma passagem no mezanino.


Entrevista com Gilson Rodrigues

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Começo a entrevista perguntando o que mudou administrativamente para que o Paraisópolis fosse reconhecido como modelo no combate a pandemia – “O que mudou no último período, foi o fato de termos conseguido nos organizar mais; aumentou o número de presidentes de rua, aumentou o número de voluntários; porém notamos que a principal mudança foi o aumento da demanda das pessoas que vivem na comunidade”.


Gilson segue – “A quantidade de pessoas precisando de alimentos aumentou muito, antes não tínhamos uma fila aqui na porta, agora temos; percebemos também o aumento no número de desempregados na comunidade, esse número dobrou; e o governo não faz nada com relação a isso, apenas nos manda parabéns pelos nossos resultados. Nós ficamos feliz por que nos últimos cem dias houve uma comprovação do Instituto Pólis, dizendo que nosso trabalho foi primordial para que diminuíssemos a taxa de mortalidade na comunidade e que na cidade temos a menor taxa de mortalidade”.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Pergunto sobre o que fez a diferença para Gilson para diminuição das mortes – “Isso aconteceu porque nós conseguimos entregar mais de 70 mil máscaras para a comunidade, ao receberem as máscaras as pessoas estão mais protegidas. Isolamos também mais de 300 pessoas, são menos infectados circulando na comunidade. Essas ações diminuíram a mortalidade. Aqui na comunidade as pessoas seguem circulando e achando ser uma gripe comum, mesmo tendo casos de mortes de pessoas conhecidas”.


Questionamos se ações serão tomadas para além da saúde, já que o número de desempregados aumentou na comunidade – “Agora passado esses primeiros cem dias, o nosso movimento é criar alternativas para reorganizar nossa economia interna na comunidade; estamos em busca de um normal economicamente falando, tivemos muitos afetados diretamente. A sociedade busca o novo normal, o que é o normal? O favelado conhece só o anormal, não tem água, o rio é aberto que corta a comunidade, as enchentes, o SAMU não entra aqui a falta de políticas públicas; é isso que é o “normal” do favelado? Não dá pra pensar em reabertura sem ter feito a lição de casa, as favelas não foram citadas em momento algum, nós tivemos 26 mortos por COVID-19 no Paraisópolis e nada se falou; Agora querem falar que o vírus é comunitário, ou seja, quando o vírus estava atingindo a população mais rica, existiu um movimento de proteção muito maior dos governos e sociedade, e agora que o vírus virou comunitário, parece que se achou a cura pro corona-vírus. Então percebemos que aqueles trabalhadores que não foram demitidos e que não faziam parte dos trabalhadores do grupo de essenciais que voltaram a lotar o transporte público, se contaminando e contaminando nos deixa preocupados; eu tenho a sensação de que os próximos dias a taxa de contaminação em São Paulo só vai aumentar, a situação não está resolvida, nós teremos que aprender a conviver com o vírus e nós das favelas do Brasil além de aprender a lidar com o vírus vamos ter que aprender a viver com a ausência de Estado ainda mais agravada, porque o problema das favelas que fora evidenciado antes da pandemia foi agravado hoje, durante a pandemia”.

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