• Francisco Toledo

Rotina de 12 horas de trabalho, bloqueios e greve: a jornada dos entregadores

O barulho das buzinas já podia ser ouvido no centro de São Paulo nesta quarta-feira (01) logo na manhã. É o mês de julho que começava na capital financeira do país, tomada por milhares de entregadores com suas motos e bicicletas. Mas não era trânsito: trata-se da primeira paralisação organizada da categoria no Brasil, que alcançou e inspirou mobilizações em outras capitais da América Latina.


Não é de hoje que homens com seus casacos e mochilas do iFood fazem parte da selva chamada manifestação política. No final de maio deste ano, durante protesto pela democracia na Av. Paulista em São Paulo, era possível vê-los se defendendo das bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo da Polícia Militar. De lá pra cá, a organização foi rápida e efetiva através das redes sociais, com a criação de um grupo chamado Entregadores Antifascistas, que conversou com o Democratize no mês de junho.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Hoje, a demanda ia além do conflito entre bolsonarismo e democratas. A pauta central e única era a condição de trabalho dos entregadores de aplicativo, considerada uma das mais precárias do Brasil.


O aplicativo de entrega para o patrão e para o entregador


Segundo dados do próprio iFood, a empresa teve um crescimento de 116% no número de pedidos recebidos no mês de novembro de 2019, em comparação com o mesmo mês de 2018. Os números significam um avanço de 12,3 milhões em novembro de 2018 para 26,6 milhões no mesmo mês de 2019. Trata-se de uma das maiores empresas em operação no Brasil, com lucros considerados fáceis: você filtra restaurantes e entregadores, os coloca em contato através de sua plataforma, e pronto.


Quando o iFood foi criado em 2011 no Brasil, muitos entregadores relembram com nostalgia as suas rendas. Um desses trabalhadores, de nome Augusto, conversou com o Democratize durante a greve nesta quarta-feira. Segundo o entregador, seus ganhos chegavam a R$6 mil em meados de 2014 e 2015, trabalhando exclusivamente para os aplicativos de entrega. Hoje, essa renda foi reduzida para R$2 mil mensais, tendo uma rotina de trabalho cada vez mais desgastante, com ao menos 12 horas diárias nas ruas.

"Olha aqui, olha o meu celular", diz Augusto para este jornalista, que filmava um homem falando no carro de som. "Olha, essa plataforma é a que utilizamos para carregar nossas viagens. Aqui diz que eu devo ganhar menos de um real por km rodado nessa entrega. Uma viagem de 15km, para receber uns dez reais", diz.


Muitos entregadores relatam dramas ainda mais graves. Diego, entregador faz dois anos, diz ter perdido colega que era seu amigo no ano passado. Ele estava fazendo uma entrega de bicicleta e foi atropelado por um carro em alta velocidade. Quando a empresa foi notificada, foi atendido por um robô. "A parte mais trágica é que o aplicativo entendeu que ele não fez a entrega e, apesar de tentarmos falar com o iFood sobre o ocorrido e sermos atendidos por um robô, alguém da empresa bloqueou meu amigo achando que ele negou o pedido. Priorizaram a entrega, e não o trabalhador, que morreu", diz.


O bloqueio é realidade para muitos entregadores que, exaustos, acabam por negar viagens mais longas para entrega. E por negar a viagem, acaba sendo bloqueado pelo aplicativo por pelo menos duas horas. Um dos gritos de guerra durante a greve foi: desliguem seu GPS, fechem o aplicativo. Assim, a empresa não consegue rastrear seu colaborador.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Demandas estão acima da ideologia


Nem todos os entregadores em greve compartilham a mesma ideologia. Isso foi comprovado durante a paralisação em São Paulo nesta quarta. Apesar de não contar com bandeiras partidárias, era possível acompanhar nas redes sociais lideranças do PSOL compartilhando fotos e vídeos da mobilização. A deputada federal Sâmia Bonfim chegou a ir pessoalmente no protesto.


Ao mesmo tempo, um entregador utilizava uma máscara com o rosto do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Grevista, mas apoiador do presidente.


A diversidade ideológica presente é mais um sinal de força do movimento que, apesar de tamanha diferença política entre seus membros, a prioridade continua sendo conquistar uma condição de trabalho mais justa para a categoria, passando por cima de debates ideológicos.


Ainda não se sabe qual é o efeito da mobilização. O que se sabe é que ela já faz parte da nossa história moderna: em plena pandemia, os trabalhadores ainda conseguem se organizar de maneira inédita e com o apoio da sociedade, que através das redes sociais, compartilharam massivamente hashtags e dicas de como as pessoas poderiam ajudar os entregadores durante a greve.


84 visualizações

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Todos os direitos Reservados