• Gustavo Oliveira

Possibilidade de despejo durante pandemia preocupa moradores de ocupação no centro de São Paulo

No momento em que o governador João Dória (PSDB) e o prefeito da maior cidade do Brasil, o também tucano Bruno Covas, participam com frequência de coletivas pedindo para que a população não frequente as ruas e fiquem em casa para conter o avanço do novo coronavírus; o mesmo poder público se mostra controverso e segue realizando as reintegrações de posse na cidade; seja em grandes terrenos ou prédios espalhados pela capital, colocando centenas de famílias na rua.


Desde o início da pandemia já ocorreram pelo menos três despejos na grande São Paulo; em São Bernardo do Campo na Vila São Pedro, tratores da prefeitura demoliram pelo menos 6 casas de alvenaria, deixando os moradores a própria sorte.


Os despejos estão ocorrendo também no interior de São Paulo: são pelo menos 3 ocupações na mira de juízes e prefeituras; mesmo durante a pandemia da Covid-19.

No centro de São Paulo, na Avenida Rio Branco, região do Campos Elísios não está sendo diferente; auxiliados pela Defensoria Pública do Estado de São Paulo, cerca de 21 famílias, entorno de 60 pessoas; estão vivendo a angustia de aguardar a decisão do Ministério Público com relação à um possível despejo que possa vir a acontecer na ocupação.


Com muitas crianças vivendo na ocupação, a preocupação de Ana Paula Farias Pinto, 39 anos, é ter de ir para um albergue da prefeitura com os 3 filhos, o mais novo acabou de passar por uma cirurgia – “Eu tenho um filho especial, ele se encontra operado, passou uma cirurgia na cabeça, ele tem hidrocefalia e a válvula que ele usa deu problema então precisou trocar; se acontecer essa reintegração como é que eu vou com essa criança para um albergue? A imunidade dele é baixa, não pode ter contato com outras pessoas, e no albergue é muita gente”.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

Me encontro com Janaina Xavier, 40 anos, já na escada do seu andar. Ela me convida para entrar em seu apartamento, onde logo sou rodeado por seus filhos. O mais novo é especial, tem autismo e se encanta com a câmera que eu carrego nos ombros; Janaina me convida para se sentar enquanto seus outros filhos comem.


Começo a entrevista perguntando para ela sobre a questão jurídica e de como estão trabalhando para barrar a reintegração de posse que o Estado quer promover – “A Defensoria Pública encaminhou o nosso caso para um grupo de mediação de conflitos para analisarem o nossa situação, segundo a Defensoria será através desse grupo a decisão se irão jogar a gente na rua ou não; mas até agora nós não temos mais informações. O que a gente sabe é que a reintegração de posse está de pé, nós estamos aguardando esse grupo”.


Pergunto para Janaina se caso venha ocorrer a reintegração para onde irão as 21 famílias – “Nós vamos pra rua, a gente não tem pra onde ir. A gente não tem nenhum auxilio da prefeitura, a gente está sem respaldo algum; o juiz manda a prefeitura executa. A única coisa que nos ofereceram foi o albergue, mas a gente não aceitou o albergue. Como é que eu vou pra um albergue com um monte de coisa e meus 9 filhos, não tem como viver num albergue”.


Sigo a entrevista perguntando como é viver a incerteza de um despejo estando grávida e passando por uma pandemia tendo que encarar um hospital para o parto – “Ao mesmo tempo que eu estou preocupada eu tento me manter tranquila. Porque eu tenho medo de ir para hospital e estando lá chegar a notícia de que tem que sair todo mundo da ocupação. Pra onde que eu vou com minha família e um bebe recém-nascido? Porque se amanhã ou depois chegar o batalhão da polícia aqui a gente vai ter que ir pra rua. Esse juiz precisa entender e quebrar essa liminar de despejo, são pessoas trabalhadoras e de família aqui, apenas isso”.

Foto: Gustavo Oliveira/Democratize

A conversa continua e pergunto para Janaina se os movimentos sociais estão dando algum tipo de respaldo para as famílias que ali vivem ocupando – “Várias pessoas se disponibilizaram a ajudar a gente, porque foi feita uma carta aberta e distribuída, então o pessoal se prontificou a ajudar. Nós estamos pedindo apoio do jeito que a gente pode, sabe? A prefeitura não quer dar a moradia, a prefeitura quer jogar na rua em plena pandemia; a gente vai pra rua e vai continuar lutando”.


Quando o assunto é a presença do coronavírus dentro da ocupação, Janaina enfatiza sobre os cuidados tomados pela família e por todos que ocupam o edifício – “Graças a Deus aqui ninguém pegou, a gente orienta o pessoal a utilizar a máscara, o álcool em gel e lavar bem as mãos. Em casa é o ritual, chegou da rua é álcool gel nas mãos e direto pro banho. Em casa eu não consigo usar a máscara mas na rua eu vou com ela. Aqui dentro é assim uma família ajudando a outra”, diz a moradora.


Sobre o auxílio emergencial dado pelo governo federal ainda existe impasse – “Umas famílias conseguiram o auxílio e outras famílias não. Eu mesma recebi mas tive o benefício cortado no mês passado. Quando eu fui receber veio uma mensagem dizendo que eu não teria mais direito a receber. Eu recebia R$1.200,00 reais mas não irei mais receber. Tem acontecido muito caso assim com esse auxilio, aqui mesmo tem uma companheira que ela está indo direto no banco pra tentar receber e nada”.



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