• Francisco Toledo

Paraisópolis: “Como o SAMU não chega aqui dentro, nós atendemos de parto até suspeita de Covid-19”

Entre um caminhão com mantimentos e uma verdadeira brigada de voluntários, é possível ver um homem sentado ao lado de duas ambulâncias privadas. De cabeça baixa com o celular nas mãos, conversava com os filhos por chamada de vídeo, enquanto esperava por um novo chamado.


É Diego Cabral, sócio e proprietário da empresa Cabral Remoções, responsável pelos atendimentos para ocorrências de coronavírus na favela do Paraisópolis, na zona sul de São Paulo.


Após ser abordado pela equipe de reportagem, Diego mostra o espaço de uma das ambulâncias que foram contratadas pela União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, no valor de R$5 mil a diária de cada uma delas. São três ambulâncias, sendo uma equipada para atendimentos de unidade de terapia intensiva.


Por dentro de uma das ambulâncias contratadas pela união dos moradores de Paraisópolis Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

No total, são 9 profissionais de saúde escalados para cuidar de uma comunidade onde vivem mais de 100 mil pessoas. São 2 médicos, 4 enfermeiros e 3 socorristas, dentre eles o próprio Diego, que ficam 24 horas por dia em quartos improvisados pela associação de moradores.


Segundo Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da associação de Paraisópolis, o SAMU se recusa a entrar na favela: "Nunca soubemos o verdadeiro motivo por trás disso", explicando a necessidade de contratar uma equipe médica de atendimento para a comunidade.


Foram ao menos 700 chamados de ambulância em Paraisópolis desde o final de março. O contato é feito através do WhatsApp pelos presidentes de rua, moradores que são responsáveis pelos cuidados de cada distrito dentro da favela.


Do outro lado do celular, está Diego e os demais profissionais da saúde, que ficam em alerta dentro do quartel montado pela associação no Centro Dia para Idoso, nas margens de Paraisópolis.


Pela ausência do Estado na região, o trabalho feito pela equipe de atendimento médico é amplo: “Como o SAMU não chega aqui dentro, nós atendemos qualquer tipo de chamada. Desde parto até suspeita de Covid-19”, diz Diego. Porém, segundo o socorrista, tem sido cada vez mais frequente casos envolvendo dificuldade respiratória.


Entrevista com Gilson, presidente da união de moradores - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

“A situação está piorando”


Tanto Gilson como Diego acreditam que o pior ainda está por vir em Paraisópolis: “A nossa previsão é que Paraisópolis comece a chegar no pico no dia 12 de maio. Isso é uma informação da nossa própria equipe médica. Existe uma sensação de aumento, seja pelas redes sociais ou por internamentos”, relata o líder comunitário.


Até o dia 9 de maio, quando nossa equipe esteve em Paraisópolis, foram 10 óbitos confirmados por Covid-19 dentro da favela. Porém, não existem testes o suficiente para garantir dados mais exatos sobre os contaminados.


"O bairro do Morumbi é o maior com número de casos em São Paulo. A nossa avaliação é que eles podem ir no Einstein pagar o teste. Aqui não”, diz Gilson.


Para Diego, mesmo com os equipamentos de proteção para a sua equipe durante o atendimento de casos suspeitos, o tempo longe de casa e a gravidade, cada vez mais intensa, dos casos começa a afetar o psicológico dos profissionais da saúde em Paraisópolis: “Eu, por exemplo, não vou para casa faz 43 dias. Tenho uma mulher que tem asma e um bebe de três meses. A gente sente saudade. Bate a parte emocional", lamenta o socorrista.


Durante a entrevista o telefone toca. É mais um chamado para a ambulância dentro da favela.


Duas horas depois, Diego e sua equipe retornam. Eles foram atender uma pessoa com problemas de diabete, que foi encaminhada para o AMA (Atendimento Médico Ambulatorial) mais próximo. Trata-se do sexto caso de atendimento em seis horas.


Após avaliação com os colegas, Diego volta para o banco onde estava sentado mais cedo. É um breve momento de descanso e calmaria até o próximo chamado.


O que o SAMU diz


A nossa equipe de reportagem entrou em contato com o Serviço de Atendumento Móvel de Urgência (SAMU) de São Paulo, mas não obteve retorno.

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