• Gustavo Oliveira

Os sepultadores do maior cemitério da América Latina estão exaustos - e foram esquecidos

Percebe-se logo na entrada do cemitério Vila Formosa-1 uma intensa movimentação de funcionários da administração.


Neste dia não havia sepultamentos de vítimas da COVID-19 no Vila Formosa-1, então a administração estava encaminhando os profissionais de imprensa, familiares e trabalhadores para a administração do Vila Formosa-2, que fica à alguns metros dali.


Na caminho para administração você percebe uma falsa sensação de calmaria, poucas pessoas, as salas de velório completamente vazias e algumas funcionárias da limpeza paramentadas com EPI’s (Equipamento de Proteção Individual), além de mecânicos fazendo manutenção nas mini-retro-escavadeiras usadas para a abertura das covas.


Chegando próximo a administração do Vila Formosa-2 a falsa sensação de calmaria deixa de existir, famílias desoladas chorando a perda de entes passa tomar conta do seu campo de visão. São muitas famílias, algumas que já sepultaram tomando o caminho de saída e outras que vão no sentido das quadras para sepultar.


De longe avistei os trabalhadores munidos com pás, enxadas e cordas, sob um sol escaldante de 28 graus, vestindo roupas brancas de plástico, estão os coveiros, dezenas de homens paramentados, que rezam com as famílias antes de sepultar e tentam fazer o sepultamento da forma mais digna possível.


Com os rostos exaustos, escorrendo suor, um trabalhador vem na minha direção e cobra a autorização da administração, apresento à ele que me diz – “Vamos trabalhar respeitando a dor das famílias, tudo bem?”. De pronto concordo.


Impressiona a quantidade de sepultamentos. Em todo momento na quadra chegam familiares em carreatas atrás do carro do serviço funerário da prefeitura. Alguns trazem dois caixões de uma vez. Em cerca de 30 minutos dezenas de sepultamentos foram registrados por mim.


Familiar se despede de parente - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Em uma das carreatas de familiares, uma senhora me aborda e muito emocionada me diz – “Moço meu pai morreu de infarto, não foi coronavírus, não deixaram nem a família velar o corpo, isso precisa ser dito pela imprensa”. É uma situação complicada, pois velórios geram aglomerações mesmo que por menos tempo que seja realizado.


A secretaria não permite entrevistas formais com os trabalhadores, mas permitem uma conversa informal e em uma dessas conversas a nossa reportagem perguntou à um sepultador o que mudou na rotina de trabalho deles durante a pandemia da COVID-19 – “O que mudou foi o ritmo de trabalho, né! Antigamente não precisava usar o macacão e essa proteção toda, era mais o básico mesmo”.


O trabalhador segue contando que – “A população em si ainda não levou a sério, já que estou tendo a oportunidade de falar eu falo, quem está aqui está vendo a quantidade de sepultamento que já foram feitos, então o pessoal que está falando que é tudo mentira, e que não está se enterrando nada, essa pessoa tem que vir aqui olhar um dia, pra ver se toma consciência, porque o negócio não é de brincadeira, esta sério mesmo”.


Após ser perguntado de como tem feito pra cuidar da saúde mental e não se abalar com tudo que está acontecendo o sepultador diz – “Eu tento me envolver o menos possível né, a gente brinca aqui no sepultamento, mais não desrespeitando a família, pra gente não ficar pensando o tempo inteiro que existe o COVID, a gente enterra 70 pessoas aqui, se não rolar uma brincadeira entre nós coveiros, imagina como a gente vai ficar em casa. A brincadeira é uma distração pra nós, pra gente não se envolver”.


O homem que trabalha há 7 anos com sepultamentos diz também que – “Em casa são duas crianças, um adolescente de 15 anos e uma criança de 8 anos, eles ficam preocupados com meu trabalho, e o que eu posso fazer é tomar os devidos cuidados para não levar o vírus para minha família”.


Antes da pandemia da COVID-19 ocorriam no cemitério Vila Formosa cerca de 35 sepultamentos diários, agora com a pandemia são registrados 75 sepultamentos diários, em algumas situações estão sepultando até durante a noite.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Enviamos para a Secretaria de Serviço Funerário perguntas para saber quais medidas de proteção, segurança e saúde estão sendo tomadas pela Prefeitura de São Paulo para que os sepultadores corram menos risco durante as jornadas de trabalho no cemitério Vila Formosa 1 e 2.


Até o fechamento desta reportagem não obtivemos o retorno da Secretaria de Serviço Funerário de São Paulo.

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