• Francisco Toledo

O padre que recebe ofensas de apoiadores do presidente e ajuda 500 moradores de rua por dia

Atualizado: Jun 9

Todas as manhãs, de segunda a segunda, moradores em situação de rua esperam do lado de fora da Igreja São Miguel Arcanjo, na região da Mooca em São Paulo. Assim que o relógio bate 7 da manhã, os portões se abrem para mais um dia de doações e cuidados liderados pelo monsenhor e pároco da igreja, o padre Júlio Lancelotti.


Conhecido pelo seu trabalho em apoio aos vulneráveis da capital, o padre já enfrentou oposição de grupos petistas e bolsonaristas, mas nunca de um vírus tão brutal. Com a pandemia de coronavírus se alastrando por São Paulo, a situação se agrava para a população de rua com o frio do inverno se aproximando. E lá está mais uma vez o padre Júlio na linha de frente.


Segundo o pároco, mais de 500 pessoas passam pela sua igreja todos os dias. Eles recebem doações de alimentos, como lanches e biscoitos, além de produtos de higiene, água e até mesmo cuidados básicos. "O que nós pretendemos com esse contato não é ser um distribuidor de lanches, mas sim quebrar a incomunicabilidade com essa população. É saber como eles estão. Eu pergunto se estão dormindo na rua, onde estão... uma forma de tentar cuidar deles", diz o padre.


Mas isso não impede as agressões verbais por parte de apoiadores do presidente da República, Jair Bolsonaro (sem partido). Enquanto ele dava uma entrevista para um jornal nas proximidades de sua residência, um militante bolsonarista soltava xingamentos ao padre. Pelo menos, nos diz Júlio, as ameaças de morte cessaram.

Morador em situação de rua é recebido pelo padre Júlio - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

O trabalho junto aos moradores de rua


Não é de hoje que o padre Júlio organiza esse tipo de contato com a população de rua em sua igreja. O que muda, segundo o mesmo, é a dinâmica: “Já fazíamos esse trabalho todos os dias, mas de outra forma. Agora, com a situação de emergência, precisamos fazer mais rápido, para não aglomerar pessoas”, diz.


Evitar uma aglomeração parece um trabalho difícil para apenas uma pessoa. Por isso, voluntários ajudam o padre todos os dias para organizar a entrega de doações. Enquanto alguns realizavam o contato direto com a população de rua, outros dois cantavam músicas de todos os tipos para tentar tirar o “ar pesado” da neblina da manhã.


Entre uma música e outra, era possível ver carros parando para entregar doações. Comida, roupa, cobertor, tudo era recebido por voluntários que carregavam para dentro da igreja. Segundo Júlio, a paróquia chegou a receber doações de pessoas que vivem fora do país.


Padre mede a temperatura de morador - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

O papel do Estado nos cuidados com a população de rua


Já passaram pela igreja pessoas relatando suspeita de Covid-19, além de outras que já estão em tratamento. Todos são encaminhados para a UBS mais próxima após cuidados com o auxiliar de enfermagem que se voluntariou junto com a paróquia.


Esse trabalho é feito durante a entrega de doações. Logo que entram na igreja, os moradores recebem uma máscara e álcool em gel. Em casos de suspeita, o próprio padre Júlio mede a temperatura. Quando questionado sobre o risco de ser infectado, o pároco desconversa: "A gente procura tomar os cuidados. Colocamos luva, escudo, máscara. Mas ninguém é imune".


A ação da paróquia dura exatamente três horas. Naquele domingo, 10 da manhã, o padre se preparava para realizar mais uma missa com transmissão online. Antes disso, conversamos sobre o papel da prefeitura no apoio com a população de rua. Segundo Júlio, a burocracia atrapalha:


“Tudo que é do Estado, tudo que é institucional, é burocrático. Como o edital dos hotéis. É só para homens com mais de 60 anos que estiverem na rede de CTA (Centro Temporário de Acolhimento da prefeitura). Mas as mulheres com crianças que não entram nos critérios da prefeitura, como ficam?”

Segundo Júlio, o próprio porta-voz da rede hoteleira já disse não querer os moradores de rua dentro de seus estabelecimentos. "É o estereótipo", lamenta.


Mas mesmo com todas as críticas possíveis em relação ao prefeito Bruno Covas (PSDB), o padre Júlio evita comparar com o presidente da República. Em um breve momento de distração, ele diz: "Comparar alguém com o Bolsonaro é impossível. Ele é de certa forma incomparável. A não ser com o demônio. E mesmo assim o demônio vai entrar com uma ação por danos morais".



14,699 visualizações

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Todos os direitos Reservados