• Francisco Toledo

"O Bolsonaro passa, a gente veio pra ficar"

"É muita saudade, mas a gente se vê pelo Zap", diz Josefa enquanto mostra a sua casa feita de madeira na ocupação Nova Palestina. Essa é a realidade de muitos brasileiros que, afastados de seus familiares, enfrentam a pandemia de coronavírus no seu auge em território nacional. Assim como muitos, a vida de Josefa poderia ser pior caso tivesse de pagar aluguel em seu antigo bairro, no Jardim Capela, extremo-sul de São Paulo.


Com uma renda mensal de R$1.500,00 e uma média de aluguel no valor de R$600 no antigo bairro, o auxílio emergencial que recebe hoje seria totalmente direcionado para o pagamento da locação de sua residência. Foi graças ao seu marido, que participou da ocupação sete anos atrás, que hoje Josefa vive em sua casa de madeira na Nova Palestina - e sem pagar aluguel. "A casa da gente é o céu, eu me sinto bem demais no meu barraco. Pra mim, eu tô num palácio, aqui é o meu palácio. É de madeira, mas é uma casa normal", diz orgulhosa.


Apesar de seu marido ter participado do início da ocupação, Josefa se mudou para a Nova Palestina no ano passado. Ela estava no Piauí em maio do ano passado quando soube que um terreno havia sido liberado na ocupação. "Sai correndo pra São Paulo", diz. Para Josefa, a segurança comparada ao Jd. Capela é maior - "Eu me sinto segura aqui. O pessoal que cuida da ocupação tá na minha oração todos os dias".


O reflexo da pandemia no cotidiano

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Com 59 anos, Josefa chegou em São Paulo no ano de 1991. Em agosto completa 60 anos, idade que já é considerada parte do grupo de risco do coronavírus. Para ela, a ajuda do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) na contenção ao vírus é fundamental.


"Alguns médicos vieram aqui ajudar, e eu só saio de casa quando for necessário. Já o meu marido trabalha, né? É pedreiro, precisa sair por causa do trabalho, mas ele também tá se cuidando", diz. Os médicos mencionados por Josefa fazem parte de uma parceria entre MTST e a organização Médicos Sem Fronteiras, que instalou seis pontos de higienização na ocupação e ainda ajudou com as diretrizes que devem ser seguidas para manter o vírus longe da Nova Palestina.


Mãe de quatro filhos e avó de outros cinco netos, ela mata a saudade por chamadas de vídeo no celular: "Graças a Deus todo mundo tá com saúde, tenho fé em Deus que não vai alcançar ninguém da minha família".


Sobre o governo federal e suas ações no combate ao coronavírus, Josefa lamenta o fato do Brasil não ter um presidente que se porte conforme o seu cargo, mas é otimista. Para ela, o Bolsonaro vai passar, mas a luta por moradia ficará firme e forte - "A gente só espera coisa melhor né, mas vamos deixar pra Deus. Porque a resposta do governo é difícil pra todo mundo", diz.


O sonho da casa própria e a relação com o movimento

Foto: Wesley Passos / Democratize

Quando questionada sobre como seria, finalmente, receber a sua casa própria, Josefa se emociona - "Eu vou ficar muito feliz, eu já estou agora, imagina quando eu tiver a minha casa pronta". Com as modificações no programa Minha Casa Minha Vida na gestão do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), o MTST e outros movimentos por moradia trabalham por diferentes alternativas na questão da moradia no país. Por sorte, a ocupação Nova Palestina já tem um diálogo avançado com o proprietário do terreno, ocupado e 2013, além de abertura na construção de uma alternativa junto com a prefeitura da capital, do tucano Bruno Covas.


Hoje, Josefa participa de todas as assembleias e ações do movimento. Mas não foi sempre assim: "Eu não entendia de nada, pelo contrário, tinha o maior medo de invasão. Sinceramente eu não sabia do que se tratava uma ocupação". Mesmo reconhecendo a importância de ocupar um terreno sem uso, a dona de casa ainda enfrenta resistência por parte de alguns conhecidos, familiares e amigos, que julgam o fato dela participar de uma ocupação.


"Tem gente que deixa a gente lá embaixo", lamenta. Seu marido, inclusive, chegou a ouvir de amigos sobre o perigo de sofrer consequências violentas com a ocupação - "Vai lá levar chicotada da polícia, diziam para o meu marido quando ele participou da ocupação anos atrás".

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Mesmo com todo o preconceito, Josefa celebra e comemora o fato de ter um teto sem precisar pagar aluguel em uma das cidades mais caras para se viver no mundo todo. O seu barraco, como diz, é organizado: a sala tem sofá e TV, ao lado passamos pela agradável cozinha, sentamos em sua mesa e bebemos a água que foi oferecida pela dona de casa, que ainda nos mostrou o seu quarto. Na parede, uma coleção de fotos antigas de seus familiares e amigos.


Ao irmos embora, perguntamos para Josefa sobre o que ela vai fazer depois que receber a sua casa própria: continuar apoiando o movimento ou não? Ela responde, com entusiasmo e certeza: "Se foi daqui que partiu, por que eu vou deixar de apoiar? Aqui é MTST, é luta pra valer. Fé em Deus. O esforço foi deles, foram eles que batalharam".

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