• Francisco Toledo

“O auxílio emergencial parece um passaporte para a morte”: o drama de Paraisópolis

Percebemos que a situação estava fora de controle do Estado assim que chegamos em Paraisópolis, na manhã do sábado, 9 de maio. Além do tradicional comércio local aberto, as ruas estreitas que atravessam uma das maiores favelas do Brasil estavam repletas de moradores e comerciantes. Ao lado de um mercado, uma fila se formava para o caixa eletrônico. Algumas pessoas com máscara, outras não.


A realidade de Paraisópolis e da maioria das favelas do Brasil, antes romantizada pelas dezenas de telenovelas, séries e filmes, parecia ser a mesma de meses atrás, quando o coronavírus ainda não havia embarcado no país. Mas existe um complexo contexto por trás do que se vê, coberto por medo, abandono pelo poder público e uma organização voluntária feita por moradores no combate à Covid-19 na comunidade.


Como toda batalha contra um inimigo em comum, foi montado em Paraisópolis um centro de guerra contra o coronavírus. A organização por trás disso é a União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, cujo presidente e líder comunitário, Gilson Rodrigues, conversou conosco.


Antes de falar com a nossa equipe, Gilson detalhou que estava em contato com uma moradora que testou positivo para o coronavírus. Segundo o líder comunitário, ela e sua família desejavam acolhimento em um dos centros montados pela união de moradores para os casos confirmados de Covid-19. Toda a conversa com os moradores, voluntários e imprensa é feita através do WhatsApp.


Existem duas casas de acolhimento para os moradores de Paraisópolis, tendo como limite 510 pacientes. Quando alguém na comunidade sente os sintomas causados pelo coronavírus, ele deve entrar em contato direto com os presidentes de rua, voluntários que moram na comunidade e ficam responsáveis em verificar a situação de seus vizinhos. O problema, diz Gilson, é que os testes para diagnóstico de Covid-19 ainda não chegaram em Paraisópolis, apesar da prefeitura de São Paulo ter divulgado na imprensa a entrega de 20 mil testes rápidos para a comunidade: “O povo está indo lá na AMA testar e não consegue”, lamenta Gilson.


Até aquele sábado, foram diagnosticados oito casos positivos de coronavírus em Paraisópolis. Mas não existe um canal de comunicação entre a união de moradores e a Secretaria de Saúde do município, o que dificulta a contagem real dos casos. Para Gilson, devem existir ao menos três vezes mais infectados do que o que foi divulgado até então.


Voluntários transportam marmitas dos caminhões para o centro de atendimento - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

O papel do poder público no combate ao vírus na favela


No dia 22 de março, antecipando o que estava por vir, a união de moradores de Paraisópolis requisitou ao município a liberação de duas escolas na região. O objetivo, concretizado, era a construção das casas de acolhimento aos moradores diagnosticados e com suspeita de Covid-19. Porém, a prefeitura não teria participado de mais nenhuma ação no combate ao coronavírus na comunidade, pelo contrário: "O governo divulgou como se fossem eles que fizeram a casa de acolhimento, e não foi". Segundo o líder comunitário, a prefeitura apenas cedeu o espaço para a união de moradores. Não foi feita nenhuma ajuda financeira para a adequação do espaço para receber os moradores.


Partiu da própria organização de moradores e voluntários as reformas nas escolas, que após o período de pandemia ficará como legado aos estudantes. Toda a estrutura é financiada por doadores, através de financiamentos coletivos na internet, além de parceiros privados.


Mas não foi a única vez que o poder público deixou Paraisópolis apenas na promessa.

"A prefeitura anunciou por várias vezes que seria construído um hospital de campanha no CEU de Paraisópolis. Tem mais ou menos um mês e nada. Foi um anúncio só para a imprensa, por causa de um pedido nosso. Até agora nada", lamenta Gilson. O Democratize entrou em contato com a prefeitura de São Paulo, mas até o momento não obteve retorno sobre os testes para Covid-19 e sobre o hospital de campanha na comunidade.


Moradores carregam alimentos para doação em Paraisópolis - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Sem o Estado, o povo se organiza


Cerca de 100 mil pessoas moram em Paraisópolis, espremidos em 21 mil domicílios. Ao menos, 8 mil moradores possuem doenças crônicas e fazem parte do grupo de risco. Para evitar um desastre jamais visto na comunidade, os moradores decidiram se voluntariar. Hoje, a união de moradores realiza a doação de 10 mil marmitas por dia dentro da favela, tendo em vista o grande número de pessoas que ficaram desempregadas por causa da pandemia, não tendo condições de dar alimento para a própria família.


Os que não perderam o emprego, se arriscam diariamente indo ao trabalho para fora de Paraisópolis: "Se você vir aqui de manhã virá o transporte completamente lotado. Aqui o home office não existe, é uma grande mentira", diz Gilson para a nossa equipe.


Além do programa de conscientização e apoio aos moradores, a união também contratou 3 ambulâncias, sendo uma com UTI. Ambas ficam dentro do Centro Dia para Idoso de Paraisópolis, onde foi montado o comando de guerra contra o coronavírus.


"Olhando para o que aconteceu nos outros países, como Guayaquil (Equador) por exemplo, percebemos que quando chegarmos no auge da pandemia, com muitas mortes, nós teríamos dificuldades para remoção dos corpos. Os socorristas foram treinados para isso. Fizemos isso porque o SAMU não entra em Paraisópolis"

Protesto contra o isolamento social na Av. Paulista - Foto: Wesley Passos / Democratize

Os protestos contra o isolamento social


As manifestações organizadas por grupos de extrema-direita contra o isolamento social ainda não chegaram em Paraisópolis. Pelo contrário, a própria união dos moradores discorda da ideia. "Eu acredito que a pessoa (que vai nas manifestações) tem uma visão deturpada do que está acontecendo. Estamos procurando trabalhar para que o processo seja rápido e menos doloroso possível. Essa pessoa deveria estar ajudando a salvar vidas neste momento. Eles estão criando situações onde o vírus se prolifera ainda mais", critica Gilson em relação aos manifestantes.


Mas quando o assunto é um possível lockdown, ou seja, o isolamento obrigatório pelo Estado, o líder comunitário acredita que a ideia não funcionaria na favela: "Viver em situação de lockdown sem uma infraestrutura do governo é a morte". Para Gilson, o poder público não teria estrutura para conseguir manter um isolamento forçado dentro de Paraisópolis, principalmente por causa de suas contrariedades. Ele utiliza como exemplo o auxílio emergencial disponibilizado pelo governo federal, motivo de aglomerações e reclamações dentro da favela.


"O auxílio emergencial parece um passaporte para a morte. Milhares de pessoas vão para as portas dos bancos, se contaminam e voltam para casa", lamenta o líder comunitário.


Esse cenário, segundo Gilson e muitos moradores da própria comunidade, pode favorecer o discurso de ódio contra as favelas, as acusando de ser a grande propagadora do vírus: "Mas não, nós somos as grandes vítimas", diz.


Sobre o presidente Jair Bolsonaro (Sem partido), Gilson é claro: “Está se espalhando a ideia de que na ausência de um presidente, nós da favela precisamos nos organizar".

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