• Francisco Toledo

"Nós também não somos brancos": o K-pop, ativismo amarelo e Black Lives Matter

Um fato inusitado chamou a atenção do mundo e das redes sociais neste mês de junho: jovens fãs de K-Pop, amplo gênero musical com origem sul-coreana, se mobilizaram contra um comício promovido pelo presidente e candidato a reeleição Donald Trump, nos Estados Unidos. A ação foi simples e, em tese, fácil: pelo Twitter, foi divulgado massivamente um chamado para que pessoas se cadastrassem para ir ao evento em Oklahoma sem a real intenção de comparecer. O republicano esperava 1 milhão de espectadores, mas o público foi de um pouco mais que 6 mil pessoas.


O ativismo inesperado dos fãs de K-Pop gerou questionamentos na imprensa e redes sociais: esses jovens, considerados geralmente despolitizados, se organizaram de tal modo por qual motivo? A resposta também não é muito difícil de encontrar.


Conversamos com Sean Miyashiro, fundador do grupo criativo 88rising nos Estados Unidos. Criado em uma garagem em Nova York, a ideia era reunir diversos artistas asiáticos ou de origem asiática e divulgar seus trabalhos pelas redes sociais.


Diferente do K-Pop, os artistas da 88rising tentam mesclar características do continente asiático com a música pop ocidental: "Nosso objetivo foi sempre conectar essas partes que, por algum motivo histórico, não se falavam ou ignoravam a existência um do outro", diz. Artistas como Joji, Rich Brian, Jackson Wang e NIKI fazem parte do grupo criativo, alcançando milhões de views em seus vídeos no YouTube.


Apesar de diferentes estilos, a influência negra é característica vital do grupo: "A 88rising não existiria sem a contribuição negra na arte e na cultura. Os artistas negros nos inspiraram de tal modo que é inquestionável", diz Sean, indo além da música: "Nós também não somos brancos. Ninguém aqui é tratado como um branco. É claro que existem diferenças históricas entre os asiáticos e os negros, que foram escravizados por séculos. Mas, no dia-a-dia, por mais que alguns amarelos tentem agir como brancos, eles sabem que jamais serão", complementa. O grupo apoiou nas redes sociais o movimento Black Lives Matter, após a morte de George Floyd nas mãos de um policial branco.


E foi além das redes: Joji, um dos principais artistas da marca, fez doações para os manifestantes e movimentos negros. Inclusive, é bom mencionar: Joji foi o criador do meme Harlem Shake, quando ainda não havia entrado na carreira musical e atuava como youtuber com o personagem Pink Guy.


Inspirado pelo rap, o cantor Rich Brian aprendeu inglês ainda jovem na Indonésia com vídeos no YouTube. Com um inglês impecável, sua ascensão foi rápida nas redes sociais. Após se mudar para os Estados Unidos, porém, relatou diversas dificuldades no dia-a-dia, incluindo a difícil aceitação de sua obra nas rádios e programas de TV. Por outro lado, suas músicas alcançam dezenas de milhões de views no YouTube. Em uma delas, de nome Yellow, ele relata o drama do jovem asiático se encaixar e descobrir a sua identidade no Ocidente:

"Esse sentimento de não pertencer em lugar nenhum mexe muito com o asiático na América. Quando começamos eu pensei que a aceitação seria difícil e demorada na comunidade Hip Hop, mas não foi. Nunca tentamos nos apropriar de nada, pelo contrário. Estamos colocando nossos sentimentos e inspirações naquilo que amamos, tentando encontrar o caminho", relata Sean.


Não é de hoje essa relação de inspiração entre negros e amarelos. Nos subúrbios de Nova York nos anos 70 e 80, os únicos filmes que existiam em cartaz nos cinemas eram os asiáticos, em grande parte estrelados por Bruce Lee. Um dos filmes mais vistos por negros nos Estados Unidos foi Operação Dragão, de 1973. Estrelado por Lee, o filme também contou com Jim Kelly, famoso jogador de tênis e artista marcial negro. Para muitos negros que viviam na periferia de Nova York, era uma das poucas oportunidades de se enxergar na tela do cinema protagonizando um personagem com características positivas.


No Brasil, um grupo chamado Perigo Amarelo foi criado para conscientizar a juventude asiática brasileira sobre o seu papel na sociedade. Em um post no Instagram, diz: "A minoria modelo está diretamente ligado ao Perigo Amarelo, trata-se de um esteriótipo inventado de que os asiáticos são mais inteligentes, disciplinados, estudiosos e tudo mais. Esse termo atinge principalmente chineses e japoneses. Não poderia ser diferente: a origem se dá nos Estados Unidos, mais precisamente na década de 60. Os orientais, antes vistos como Perigo Amarelo, agora representam o imigrante que aderiu ao sonho americano", explica o post.


"Seria incrível ver algo parecido no Brasil", diz Sean. "É preciso conscientizar a juventude sobre essas coisas, sabe? Acredito que vocês devem viver algo parecido com o que vivemos nos Estados Unidos. A discriminação, o sentimento de não pertencimento, as piadas sem graça que afetam o nosso psicológico logo na infância. Isso tudo deixa marcas. O que precisamos fazer é sentar, respirar e dizer: tá tudo bem, cara. Vamos nos organizar, divulgar o trabalho desses jovens, conquistar o mundo".

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