• Gustavo Oliveira

Não existe quarentena para jornalista

Atualizado: Jun 9

O Democratize ouviu vários profissionais da imprensa que estão na linha de frente da cobertura durante a pandemia de coronavírus no Brasil.


O relato abaixo é do fotojornalista Gustavo Basso.

A cobertura jornalística está sendo desafiadora, porque existem muitas histórias e relatos em diversos pontos da cidade de São Paulo e do Brasil. A função do repórter fotográfico nesse momento é filtrar as histórias e fazer com que elas cheguem na casa das pessoas. Ao meu ver, a dificuldade está nessa filtragem, apurar a história, descortiná-la, fazer com que fotografias não sejam agressivas, o que é difícil nesse momento, pois as pessoas estão morrendo. Esse é o desafio, tentar compor bem a imagem sem faltar com respeito com a vítima que ali está sendo assistida pela equipe médica que tem sido o desafio.


Até agora tenho sido certeiro nas histórias que venho escolhendo contar e trabalhar. Uma me marcou muito até esse momento de cobertura que tenho feito. Foi quando acompanhei o SAMU em Santo André, cidade localizada na Grande São Paulo. A equipe médica havia ido atender um senhor de 80 anos de idade com parada cardíaca, que já era acamado e já tinha diversos problemas de saúde. O SAMU atendeu ele dentro de sua residência, eu lembro que foi uma situação bem complicada, porém registrar aquilo era obrigação da minha função como jornalista.


Depois de passar por situações como essas, em um quarto fechado com uma pessoa que testou positivo para Covid-19 dentro dele, sendo atendido por equipe médica, ou mesmo entre outros lugares por onde passei, como uma UTI (Unidade de Tratamento Intensivo). Transitei por diversos hospitais, fiz acompanhamento de equipes do SAMU dentro de ambulâncias, você fica com receio de ter sido infectado, esse pensamento existe e é presente no fim do trabalho. O cara que entra onde entrei, presencia o que tenho presenciado, se disser não ter receio, desculpa, esse cara é um inconsequente. Todos temos pais, mães, namorada e família que se preocupam com a gente. Ainda mais sabendo que estamos trabalhando no front.


Foto: Gustavo Basso

O que tem me deixado mais tranquilo é o fato de que eu moro só, pois meu filho está com a mãe em Sorocaba (SP), meus pais estão bem longe dessa loucura, e isso me tranquiliza. A última vez que vi meus pais, faz um tempinho, era aniversário do meu pai, eu fui lá vê-lo, porém tomamos os devidos cuidados, nos vimos atrás de uma janela, mantendo distância e tomando todos os cuidados.


Agora, eu como asmático, é claro que me preocupo, o que tenho feito é confiar nos EPI’s (Equipamento de Proteção Individual), e torcer que nada de errado. Eu tenho usado máscaras N95 e óculos de proteção. Luva eu não uso porque toco muito no rosto por ter alergia, então prefiro confiar no álcool em gel e saber que minha mão está limpa ao tocar no rosto. Na chegada em casa não tem sido diferente, tiro toda a roupa e já ponho pra lavar, faço a desinfecção do equipamento com álcool 70%, só não vou dizer que chego e vou pro banho porque não vou, freelancer vive na correria e atolado de trabalho, preciso ver as fotos, escrever texto sobre a reportagem, então acaba que o banho fica pra depois.


Uma coisa que tenho notado, é que no círculo social que eu transito, ou seja, classe média, majoritariamente branca do centro expandido da cidade de São Paulo, o meu psicológico está muito bom comparado aos demais. Atribuo isso ao fato de que pra jornalista não existe quarentena, nesse momento com ou sem pandemia o jornalismo é essencial então não estou enfurnado em casa sendo bombardeado por notícias muitas vezes sensacionalistas e deixando os nervos das pessoas à flor da pele.


Foto: Gustavo Basso

Por mais que as pessoas falem que os profissionais da saúde são heróis e tal... Quem são esses profissionais da saúde? É importante que essas histórias sejam contadas.


Uma coisa que pessoas próximas tem me perguntado e que eu acho exagerado, é se eu tenho orgulho do trabalho que estou fazendo. Eu não tenho orgulho, eu sou bem exigente com o meu trabalho e eu não consigo me orgulhar, mas estou bem satisfeito com o que fiz até aqui.


O que eu posso dizer é que tem sido uma cobertura realizadora, porque eu nunca havia presenciado algo como essa pandemia, nunca havia presenciado algo dessa magnitude. As pessoas falam que nós estamos no mesmo barco, o que eu acho uma baita falácia, nós não estamos no mesmo barco, mas estamos enfrentando a mesma tempestade.

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