• Francisco Toledo

"Não adianta construir uma coisa bonita diante de um alicerce podre"

Para quem acompanha as manifestações pela democracia em São Paulo, tem sido uma cena comum encontrar trabalhadores de aplicativos de entrega entre as barricadas e manifestantes.


Imagens registradas no primeiro protesto antifascista durante a pandemia, no dia 31 de maio, percorreram o país através das redes sociais: jovens com as mochilas dos aplicativos nas costas jogando pedras contra a Polícia Militar, que havia atacado a manifestação pacífica de forma indiscriminada. Isso repetiu-se em discurso durante os outros domingos de protestos na capital paulista, com cada vez maior adesão dos auto-denominados Entregadores Antifascistas.


Conversamos com Paulo Lima, fundador do grupo, e Tiago Bonini, um dos novos integrantes do movimento que começou recentemente. Para eles, a jornada é tripla: defender-se do coronavírus em uma profissão abandonada de direitos trabalhistas, colocar comida na mesa de casa e combater a lógica perversa do fascismo, cada vez mais exposta na sociedade brasileira.


"Não adianta construir uma coisa bonita diante de uma alicerce podre"

Com a primeira greve geral dos entregadores marcada para o dia 1 de julho, Paulo nos contou que não tem sido um trabalho fácil. "Tem sido uma coisa difícil e que demorou um longo tempo. Primeiro tivemos que destruir algumas mentiras como a meritocracia. Acredito que antes de iniciar alguma coisa, precisamos destruir outras".


O grupo, que marcou presença no último domingo de protesto na Av. Paulista em menor número, tem variado a quantidade de membros desde a sua fundação. Se antes eram 50 entregadores agora são cerca de 30, segundo Paulo. A tarefa é árdua: é necessário confiar nos companheiros, dialogar com trabalhadores em outras regiões do país em meio a uma pandemia, e enfrentar a oposição interna entre os próprios entregadores de delivery: "Aqui não é um grupo de gado, todo mundo é pensador".

Bonini (esquerda) e Paulo (direita) no último domingo - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Apesar da polarização, os insultos contra o grupo ainda não se tornaram ameaças, segundo Bonini. "No Instagram aparecem alguns bolsonaristas mandando besteira por mensagem. Mas a gente releva, porque querendo ou não, pra se ter uma democracia é necessário ter dois lados", diz para a nossa equipe.


Como qualquer outra classe de trabalhadores, existe uma grande divisão política também entre os entregadores: alguns defendem o governo, outros preferem não entrar na política. Segundo Paulo, um grupo de entregadores bolsonaristas chegou a espalhar mensagens afirmando que ele seria um dos "encapuzados da CNN", referindo-se à entrevista feita por supostos antifascistas mascarados à emissora de TV.


Mesmo assim, ele defende o diálogo: "Eu não sou um cara violento. Nós acreditamos que podemos resolver as coisas debatendo ideias. E quem tem ideia não precisa trocar soco na cara", diz.

"O aplicativo representa o fascismo da melhor forma possível"

Tanto para Paulo como para Bonini, os verdadeiros inimigos da classe são os aplicativos de entrega, como Rappi, iFood e Uber. Sem qualquer direito trabalhista e um contrato de trabalho minimamente confiável, os entregadores representam uma classe onde não se sabe quem são os patrões. Os CEOs dessas empresas chegaram a entrar na Justiça para evitar um custo adicional para a sobrevivência de seus trabalhadores. A desembargadora Dóris Ribeiro Prina, do Tribunal Regional do Trabalho, derrubou uma liminar que obrigava o iFood a pagar ao menos um salário mínimo aos trabalhadores diagnosticados, sob suspeita ou do grupo de risco do coronavírus.


O motivo, segundo a desembargadora: a relação entre a empresa e seus entregadores não caracteriza relação trabalhista prevista da CLT.

Os entregadores em conversa com nossa equipe - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Para se ter uma ideia, o iFood chegou a destinar um fundo de apoio aos estabelecimentos no valor de R$100 milhões durante a pandemia. Para os entregadores, que enfrentam uma situação de risco e vulnerabilidade, a empresa destinou apenas R$25 milhões para a extensão do plano de benefícios em saúde, menos da metade do gasto com os estabelecimentos.


Essa realidade de sub-trabalho não é exclusiva dos entregadores antifascistas, mas de todos. E é isso que Paulo e Bonini tentam transmitir em seus discursos.


"O fascismo não quer diálogo, quer mandar você calar a boca", e emenda: "(com o aplicativo) não tem diálogo. Você dialoga com um robô. Tivemos um caso em São Paulo de um entregador morrendo de infarto. Ele não conseguiu falar com ninguem do aplicativo. Sabe por que não responderam? Porque era um robô", diz Paulo.


Existe uma grande expectativa para a primeira greve geral dos entregadores no dia 1 de julho, com grande adesão e apoio da sociedade civil. Agora, resta entender qual será a reação dos aplicativos de entrega diante de tal mobilização.

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