• Francisco Toledo

Mesmo com auxílio emergencial negado, moradora torna-se voluntária em Paraisópolis

Com duas sacolas de feira vazias nas mãos, Larissa faz o mesmo trajeto de segunda a sábado, de sua casa para o Centro Dia para Idoso em Paraisópolis. O espaço, que antes era utilizado para realização de diversas ações culturais e esportivas gratuitas, hoje é um verdadeiro centro de guerra contra o coronavírus.


A jovem integra os chamados Presidentes de Rua, nome dado para os moradores da favela que se voluntariam para representar o espaço de 50 casas em torno da sua. Cabe ao presidente o trabalho de conscientizar os seus vizinhos sobre o perigo do coronavírus, além de relatar possíveis casos da doença e a entrega de marmitas para quem mais necessita.

“São as pessoas que mais precisam (da doação de alimentos), né. Eles não possuem condição de cozinhar, e a gente vai lá e entrega na porta”, diz Larissa para a nossa equipe de reportagem antes de iniciar mais um percurso para entrega das marmitas.


Toda a articulação na distribuição das refeições é feita pela União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, presidida por Gilson Rodrigues, líder comunitário e presidente da associação. Cerca de 10 mil marmitas são fornecidas por dia para toda a comunidade, que conta com cerca de 100 mil habitantes. O preparo dessas refeições é feito por voluntários no próprio Centro Dia para Idoso, além de 9 restaurantes locais contratados para ajudar na produção. O trabalho da associação é financiado, em grande parte, pelo dinheiro recolhido através de doações em financiamentos coletivos. “A fome já chegou (em Paraisópolis). São dois Brasis completamente diferentes”, diz o líder comunitário.


Voluntários carregam marmitas para doação - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

O benefício federal que não chegou

Enquanto um grupo de voluntários separa as marmitas que serão entregues por Larissa, questionamos a moradora sobre o auxílio emergencial do governo federal para os seus vizinhos. Ela interrompe: “Eu faço parte desse grupo. Tem um mês que estou em análise, assim como boa parte das pessoas que moram próxima da gente”.

Segundo Larissa, os moradores que receberam o benefício estão com medo de se locomover para as agências de banco por causa da aglomeração de pessoas nas ruas da comunidade. Essa realidade foi vista em pleno sábado pela equipe de reportagem, quando atravessamos Paraisópolis e encontramos diversos comércios abertos.

Ainda assim, mesmo com o medo do coronavírus, algumas pessoas já estão começando a ceder. “A minha vizinha falou que na segunda ela vai, porque não tem mais jeito”, diz Larissa.


Para Gilson Rodrigues, o auxílio emergencial de R$600 cedido pelo governo federal “é um passaporte para a morte”, já que cria uma angustia e ansiedade na população que não consegue acesso ao benefício, além de causar aglomerações e filas em caixas eletrônicos e agências bancárias.


Mesmo sem apoio do governo, é hora de ajudar a comunidade

Assim como Larissa, cerca de 1.900 pessoas participam das ações da favela contra o coronavírus, incluindo moradores de Paraisópolis, voluntários de outros bairros e 311 funcionários contratados pela união de moradores. Dentre os participantes, existem 420 presidentes de rua da favela.


Mesmo com suspeitas da doença na sua região de atendimento, Larissa diz não ter intenções de parar: “Ao mesmo tempo em que a gente se sente com medo, também é gratificante poder ajudar o próximo”.


Depois de uma curta conversa, as duas sacolas de feira voltaram cheias para Larissa. É hora de fazer a entrega para os moradores.


A entrega de marmitas para moradores - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

São 55 marmitas para serem distribuídas em seu território. De porta em porta, Larissa aborda os vizinhos com naturalidade e intimidade. Em uma das casas, ela mostra para a reportagem um adesivo colado na porta. Isso significa que os moradores daquela residência precisam de ajuda dos voluntários.


Mãe de dois filhos, a moradora não se importa de dividir as refeições com pessoas que estão paradas nas vielas e becos de Paraisópolis: “São todos nossos vizinhos, não importa. Eu não consigo negar comida para ninguém”, diz Larissa enquanto termina esta etapa de sua atual rotina.


Cerca de duas horas depois de chegar no Centro Dia para Idoso, Larissa encerra mais um dia de trabalho, mas mantém-se em alerta. É seu trabalho monitorar a saúde dos vizinhos para evitar a propagação do vírus.


Com duas marmitas que sobraram para o consumo de sua família, as sacolas de feira agora estão vazias, mas logo deverão estar cheias novamente. Enquanto isso, a população da favela continua aguardando o apoio e a presença do poder público, cada vez mais distante de Paraisópolis.



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