• Gustavo Oliveira

Fotógrafo relata drama em cobertura de pandemia no Brasil

Atualizado: Jun 9

O Democratize ouviu vários profissionais da imprensa que estão na linha de frente da cobertura durante a pandemia de coronavírus no Brasil.


O relato abaixo é do fotojornalista Pedro Chavedar.

Eu comecei a fotografar os problemas trazidos com a chegada do vírus em Mogi das Cruzes (SP) no final do mês de março, quando a cidade começou a se preparar estruturalmente com as construções de hospitais de campanha, ações solidarias e aberturas de covas.


Estar no front e registrar a pandemia está fazendo com eu tenha um mix de sensações, de indignação à tristeza, porque infelizmente as pessoas não estão se dando conta do perigo real e da letalidade que o vírus traz para todos. As ruas de Mogi seguem movimentadas e eu acabo ficando perplexo com relação as pessoas que não acreditam nos especialistas, na ciência, em médicos que estão se doando em hospitais no combate à Covid-19.


Logo no início eu acabei fotografando a construção do hospital de campanha da cidade, além da abertura de 600 covas no cemitério, e continuei desenvolvendo meu trabalho com a população de rua.


Covas são abertas em cemitério na cidade de Mogi das Cruzes, São Paulo - Foto: Pedro Chavedar

No cemitério, foi impactante ver os trabalhadores se arriscando na abertura das covas, assim também como os que ergueram o hospital de campanha. Eu achei um ato louvável e admirável.

Dois momentos nessa cobertura me marcaram muito. O primeiro quando eu desci cinco andares a baixo do solo, aonde ficam as novas gavetas do cemitério, mais ou menos uns 50 metros de comprimento com capacidade para mais ou menos 150 caixões, o clima frio e úmido, o pensamento que ali em breve poderiam estar cheio vítimas da pandemia, nesse momento é impossível não pensar nas pessoas que você gosta e ama.


Já o segundo momento, foi quando dei continuidade ao trabalho que faço com as pessoas em situação de vulnerabilidade social, me disseram que não estão com medo do vírus, e acreditam num livramento divino, além de acreditarem que o fato de consumirem muito álcool fará com que o corpo fique imune ao vírus da Covid-19. Nós que somos privilegiados por termos informação, conhecimento e estudo, podemos achar uma grande besteira, achar que o fato de beber álcool nos deixara imune ao vírus, mais pra mim só reforça o quão vulneráveis e desassistidos eles estão, tipo vivão e vivendo mesmo, nem ai para o corona-vírus.


Me perguntaram se eu tive medo de me infectar, respondo que não. Claro que estou tomando todos os cuidados quando saio de casa. Uso blusa de manga comprida, máscara, luva, álcool em gel, tudo conforme manda a OMS (Organização Mundial da Saúde). Quando chego em casa de pronto coloco as roupas pra lavar, tomo banho e faço a desinfecção dos equipamentos de fotografia com álcool 70%.



Eu acho que o medo inibe a possibilidade da gente registrar o momento histórico que estamos vivendo, temos que tomar cuidado, obviamente. Mas não devemos ter medo.

O meu psicológico esteve ruim, porque não tenho visto as pessoas que gosto, não vejo minha mãe, meus avós, que já são velhinhos, minha namorada e nem meu enteado. O que me faz ter picos de raiva das pessoas que não estão levando a quarentena a sério, porque a cada novo dia que as pessoas furam a quarentena, acaba sendo um dia a mais longe das pessoas que eu gosto.


E o comportamento negativista das pessoas com relação ao vírus, acaba fazendo com que eu não acredite que o governo vai melhorar, que a sociedade vai melhorar, quando dizem que sairemos melhores dessa pandemia, infelizmente eu acho que não, eu vejo o corona-vírus como um marco para o aumento das nossas desigualdades sociais. Basta ver os dados de quem morre mais, o bairro ou a região que morre mais, então isso acaba me deixando muito triste, mais eu tento não pensar muito.


No mais estou orgulhoso pelo trabalho que estou fazendo aqui na minha cidade, principalmente dos feedbacks que tenho recebido sobre o trabalho que venho fazendo, que se chama “Trabalhadores Uni-vos”, onde eu faço retratos dos trabalhadores que estão lutando no front contra a pandemia. Aqui em Mogi eu sou um dos poucos que está retratando a pandemia, além do Warley Kenji e a Mari Acioli, que é fotografa do Jornal Mogi-News, que é um jornal diário aqui da cidade. Então basicamente somos nós três que estamos mais no front do registro fotográfico na cidade.


Vejo a pandemia como um registro histórico pra cidade, pra história da humanidade, pra minha história e pra história todos. Nós que somos jornalistas temos muito daquilo, eu estava lá, então me sinto bem orgulhoso por fazer parte dessa história.


Pedro Chavedar é Jornalista formado Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero, é Fotografo e apresentador do Podcast Na Xepa.

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