• Gustavo Oliveira

Creches e escolas fechadas, crianças em casa: com quem?

Por Wanessa Brasil


Com as aulas presenciais paralisadas, a pandemia trouxe uma questão inicial a ser resolvida para as mães trabalhadoras: com quem vai ficar o meu filho? Existem as que têm a felicidade de ter os avós por perto, ou alguém de confiança, mas muitas delas não possuem familiares próximos e que estejam disponíveis em casa.


“Precisei voltar a trabalhar e veio o desespero: com quem eu vou deixar os meus dois filhos? Por sorte o meu irmão que ia embora para o Maranhão não conseguiu viajar e acabou ficando em nossa casa, foi o que me fez respirar um pouco aliviada”, explica Cleres.


As mães que trabalham fora precisam enfrentar essa questão, colocar os seus filhos em risco, e além disso, pagar por esse serviço.


“Depois de um mês do início da pandemia, o meu esposo conseguiu um emprego. Eu estava trabalhando em casa, até que chegou o dia que precisei voltar a trabalhar no prédio da empresa e veio a maior preocupação: com quem deixar a minha filha? A sugestão da empresa, na qual eu trabalho, foi de pagar alguém para ficar com ela, mas a gente sabe que nessa época é muito difícil achar quem queira, porque quem está fazendo isolamento certinho não vai querer ter contato com uma criança que os pais estão trabalhando fora”, disse a fonte, que preferiu não ser identificada por medo de possíveis retaliações.


Sem muita opção, essa mãe trabalhadora acabou deixando a sua filha com a sobrinha de seu esposo, uma adolescente. A jovem está praticamente morando com eles porque o casal sai muito cedo de casa para ir trabalhar. “Depois disso veio outro porém, a sobrinha do meu esposo faz aula online toda quinta-feira, sendo assim, esse dia da semana ela não pode cuidar da minha filha. Nas primeiras quintas conseguimos driblar a situação, coincidiu com a minha folga e atestado, até que chegou a terceira semana. Na quarta-feira a noite eu estava desesperada porque não tínhamos conseguido ninguém para ficar com a criança”.

Foto: Francisco Toledo / Democratize

Sem opções, os pais acabam deixando os seus filhos com pessoas pouco conhecidas. Nesse momento, toda ajuda é bem vinda. “A nossa última opção foi deixar com uma vizinha, que nós não temos muito contato, mas ela entendeu a nossa situação. Na verdade a minha filha ficou com as filhas dela de 13 e 16 anos porque ela precisava trabalhar”.


De acordo com as entrevistadas, as empresas não dão o auxílio necessário que elas gostariam. “Cheguei a conversar onde eu trabalho, porque eles informaram para o sindicato que as mães que têm filhos pequenos permaneceram em home office, mas isso não é verdade. A empresa prometeu e não cumpriu, a lei não é para todos lá”.


“Pedi um notebook para trabalhar de home office apenas nas quintas-feiras, mas não foi liberado. A empresa está mandando um monte de gente embora e as pessoas ficam falando que eu vou acabar me queimando. E eu vou fazer o que com a minha filha? Ou eu me queimo ou eu cuido da minha filha? Não dá para pesar, é ela! Sempre vai ser ela! Está tudo bem estressante e isso acaba sendo delicado, mexendo ainda mais com a minha mente”.


A entrevistada finalizou dizendo que a sua mãe teve que voltar a trabalhar, mesmo sendo do grupo de risco. Diante de tantos problemas ela vive a mesma angústia toda semana, pensando com dias de antecedência com quem deixar a sua filha na próxima quinta.


Cleres nos contou que agora está mais preocupada porque os seus filhos terão que ficar sob cuidados de terceiros. “O meu esposo trabalha dia sim outro não, mas agora o meu irmão vai embora e eu vou ter que pagar alguém para ficar com as crianças e vem mais uma preocupação: será que essas pessoas estão se cuidando também?”


Sem condições financeiras e ao mesmo tempo sem poder deixar o emprego, a única alternativa de Cleres é trabalhar e pagar alguém para cuidar de seus filhos, e como são duas crianças o valor acaba ficando alto, praticamente o salário que ela recebe. “Eu costumo dizer que a nossa realidade é assim: perder o dia para não perder o emprego. Vou trabalhar somente para pagar a mulher que vai cuidar deles. Não posso deixar o trabalho porque quando tudo isso passar pelo menos estarei empregada”, relata a auxiliar de limpeza.


Wanessa Brasil é formada em jornalismo pela Universidade São Judas, tem 26 anos e trabalha como maquiadora, além de ser mãe do Davi de 2 anos.

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