• Gustavo Oliveira

Como o Pimp My Carroça tem ajudado os catadores durante a pandemia

Os catadores de resíduos recicláveis que rodam pelas ruas da capital com suas carroças sabem de sua importância para sociedade no geral, não é novidade para eles, é unanime. Considerados por muitos como essenciais e também pouco valorizados por grande parte da sociedade e Estado, os catadores seguem fazendo seu trabalho durante a pandemia da Covid-19.


Com o mínimo para se proteger, bancado pelo próprio bolso, a carroça ganhou novos adereços, entre eles uma garrafa de água com sabão pendurada na lateral. O dono da carroça é David Max André, 37 anos, que utiliza o novo item para lavar as mãos e antebraço.


Nossa reportagem acompanhou o trabalho do carroceiro David em uma das suas coletas e descarregamento do material recolhido por ele em um ferro-velho na Rua Ferreira de Araújo, no bairro de Pinheiros, zona oeste de São Paulo na manhã da última terça-feira (30).


David Max é morador do Jardim São Jorge, bairro da zona oeste que beira a Rodovia Raposo Tavares. Seu dia começa às 4 horas da manhã, quando se despede da mulher e dos filhos, embarca num ônibus lotado até o bairro de Pinheiros; munido de uma máscara de pano, caseira, e um frasco de álcool gel. Às 6 horas da manhã já está no seu primeiro cliente; são 3 anos que fielmente neste horário David recolhe os resíduos recicláveis de uma empresa de comida congelada que fica à alguns metros do ferro-velho.


Diferente de grande parte da categoria de trabalhadores de coleta, David conseguiu receber o Auxilio Emergencial pago pela Caixa Econômica Federal para trabalhadores informais, desempregados entre outros. Além do Auxílio do Governo Federal, ele também foi beneficiado pelo Pimp My Carroça, que uniu forças e conseguiu arrecadar dinheiro por meio de um financiamento coletivo que foi transformado num complemento de renda para catadores.


O que é o Pimp My Carroça

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

O Pimp My Carroça é um movimento que busca retirar os catadores de reciclagens da invisibilidade social, promovendo a auto estima do catador e sensibilizando a sociedade. O grupo utiliza de ações criativas e do graffiti para conscientizar, engajar e transformar. Além de promover ações, como por exemplo, o financiamento coletivo e doação de carroças a catadores.


Aceita crédito e débito


Cansado de levar calotes de pessoas que acham ser uma “obrigação” que os catadores devam recolher os resíduos recicláveis e não querem pagar a retirada do material, David inovou e adquiriu uma máquina de cartão, aceitando débito e crédito para retirar seu entulho ou reciclagem – “Eu tenho um cliente que quer me pagar com reciclagem, ou seja, eu retiro 4 ou 5 sacos de entulho, preciso andar com a carroça até o Eco-Ponto da prefeitura que fica na Cidade Universitária, e ele não quer pagar a taxa do meu serviço, quer me dar reciclagem, pra mim não compensa”.


David segue – “Com a maquininha de cartão o cliente não tem desculpa, não tem mais aquele sofrimento de falarem passa aqui tal dia que eu te pago, por exemplo, eu fiz uma limpeza pra uma cliente de entulho, ela falou que me dava o dinheiro depois, na hora eu falei débito ou crédito, (risos), ela não acreditou e fez o pagamento”.


O perigo invisível

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Exposto em sua rotina por andar muito pela cidade e ter contatos com pessoas, David sabe da importância de se precaver para não ser contaminado pelo coronavírus. Pergunto à ele o que faz pra se prevenir – “Eu tenho a água com sabão e água limpa, além do álcool em gel e a máscara que eu não tenho tirado por nada. Eu conheço pessoas que não se cuidam, não usam máscara e pensam que é um resfriadinho, eu vejo que não é assim né, isso veio pra matar, não está matando 2 ou 3 pessoas, ela já matou milhares”.


Pergunto a David se ele conhece algum carroceiro ou alguém que contraiu o coronavírus – “Não conheço ninguém da reciclagem que perdeu a vida, mas tenho um amigo da família que morreu sim da doença, o rapaz ficou internado por 14 dias e veio à falecer, o seu Laércio lá do Rio Pequeno, triste, mata mesmo”.


Pergunto para David o que está afetando mais nesse período de quarentena – “Está sendo muito ruim, porque os clientes tem medo da doença então resolveram ficar em casa, o que eu não julgo, porque nós catadores também temos medo de enfrentar a doença, a sua necessidade que vai dizer se você segue trabalhando ou não, medo de morrer todo mundo tem, ninguém nasceu pra ficar pra semente”.


O ferro-velho

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

No ferro-velho onde David vende seus recicláveis, são cerca de 40 catadores que circulam diariamente. Nossa reportagem notou que a grande maioria dos trabalhadores utilizam máscaras e seguem as recomendações de saúde, inclusive o gerente Edivaldo Andrade, piauiense de 44 anos de idade, residente de São Paulo há 27 anos.


Edivaldo Andrade nos contou que a necessidade falou mais alto quando apenas serviços essenciais foram autorizados a funcionar – “São 40 pessoas que dependem daqui aberto para colocarem comida em casa. Teve Auxilio Emergencial para alguns mas, e quem não teve e depende disso aqui?”.


Edivaldo Andrade segue – “Nosso trabalho é essencial também, sabendo disso funcionamos de portão fechado, permitindo somente a entrada com máscara e só pra venda de material. Nada de ficarem enrolando aqui dentro”.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

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