• Francisco Toledo

Como a quarentena tem afetado os santa ceciliers e seu contraste com a periferia

As ruas parecem vazias ao andar pelo bairro da Santa Cecília, na região central de São Paulo. Mas dentro dos apartamentos antigos, equipados por plantas e decorações nas varandas e janelas, estão os santa ceciliers, apelido dado nas redes sociais para os moradores da região.


Por fora do estereótipo dado, uma nova concentração de moradores cresceu desde meados de 2013 na região. Tanto a população como a própria Santa Cecília se reinventa conforme os acontecimentos atravessam a cidade. Com a quarentena imposta pela pandemia de coronavírus não seria diferente.


Tradicional bar do Copan durante a quarentena

Os bares que vendem cerveja ao litro, antes lotando calçadas de clientes, hoje vivem de meia porta aberta para evitar aglomerações. Nada de consumo dentro do estabelecimento, agora é pegar e levar para casa. É o caso do Copanzinho, nome carinhosamente dado pelos frequentadores ao bar localizado nas proximidades do edifício Copan, na região da República.


Já as casas alternativas parecem viver outra realidade, sobrevivendo através da venda de vouchers, parcerias com marcas de cerveja, financiamento coletivo e delivery.


É o caso do bar Cama de Gato, localizado nas proximidades do Elevado João Goulart. Sócio do estabelecimento, Bruno Bocchese diz que o foco de atuação durante a quarentena é em duas frentes: financiamento coletivo e a compra de voucher para consumo quando o bar reabrir. "O financiamento coletivo deu super certo. Fomos o primeiro bar a propor essa iniciativa e acredito que o pioneirismo, junto com o fato de já termos um público cativo, ajudou a impulsionar a campanha", diz Bruno.


O Cama de Gato foi fechado antes do governador João Doria (PSDB) decretar quarentena no estado. Segundo Bruno, nenhum funcionário foi demitido. Com a opção de delivery, dois funcionários trabalham fisicamente no bar com escalas reduzidas. Em um cenário pós pandemia, o Cama de Gato já trabalha com alternativas para superar o impacto financeiro: "Vamos expandir nosso horário de funcionamento e trabalhar como um café durante o dia", diz.


Fachada do bar Cama de Gato durante a quarentena - Foto: Francisco Toledo / Democratize

Diferente dos bares, os mercados podem continuar funcionando normalmente, respeitando as normas sanitárias da Organização Mundial da Saúde (OMS). Localizado na Rua Major Sertório, o Instituto Feira Livre é o local favorito para compras de produtos orgânicos na região. Lá, os clientes ainda podem entrar no estabelecimento e fazer as suas compras. O local funciona com a limitação de pessoas dentro da loja. Segundo Fabrício, porta-voz do estabelecimento, foi feita uma "restrição de entrada de público", além dos horários que foram modificados. "Pedimos que os frequentadores passem álcool na entrada, além do uso obrigatório de máscaras", diz. Quando questionado sobre o cotidiano do bairro, sempre repleto de aglomerações e eventos diversos, Fabrício diz que "quanto mais cedo nos adaptarmos ao mundo que se impôs pela pandemia" melhor.


Mas nem todo comércio na região conseguiu sobreviver ao período de fechamento obrigatório. É o caso do Mandíbula. Segundo o Bruno Bocchese, a situação é diferente. Ele também é um dos sócios do estabelecimento, localizado na região da República. "A ideia era fechar na Galeria Metrópole quando já estivéssemos para abrir o novo. A situação atual mudou o tempo das coisas - optamos por fechar antes do previsto - mas o plano segue o mesmo". Ainda este ano, segundo Bruno, o Mandíbula deve reabrir em um novo endereço.


Essa realidade é vista fora da bolha cecilier. Não muito longe dali, as regiões do Brás e 25 de Março continuam com aglomerações de vendedores e clientes, mesmo com o fechamento das lojas imposto pela prefeitura. Trata-se de sobrevivência, segundo os próprios comerciantes, que não contam com a devida assistência do Estado e são, em sua maioria, autônomos.


Outras regiões da cidade atravessam por um período ainda mais angustiante, como o bairro de Paraisópolis. Dentro da favela, o comércio permanece funcionando normalmente, sem qualquer tipo de fiscalização por parte da prefeitura. Segundo Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis, trata-se do “ganha pão dos moradores”, sendo impossível decretar algo como lockdown dentro da comunidade. Em partes, a dificuldade em tal medida viria da ineficiência do poder público dentro de Paraisópolis.


Gilson Rodrigues em conversa com a nossa equipe de reportagem - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Para Gilson, a presença do Estado na favela não existe, o que tornaria impraticável uma medida mais brusca de isolamento para os seus moradores.


Mais de 200 mil pessoas vivem dentro de Paraisópolis, em uma área de 0,79km². Já a Santa Cecília, segundo última estimativa da prefeitura, abriga 83.717 moradores em um espaço de 3,9 km², o que mostra a discrepância entre a possibilidade de praticar o isolamento social conforme região da capital.


A abertura gradual e seus efeitos em São Paulo


Mesmo com as diferenças sociais e geográficas dentro de uma mesma cidade, o prefeito Bruno Covas (PSDB) decretou o que chama de abertura segura para São Paulo a partir do dia primeiro de junho. Escritórios, atividades imobiliárias, concessionárias, comércio e shoppings abrirão de forma restrita.


A medida foi tomada após um possível conflito com o governador João Doria, que defendia a inclusão da capital do estado na chamada Zona Vermelha, na qual não poderia haver mudanças no isolamento social. Partiu do prefeito Bruno Covas a iniciativa de inclusão na Zona Laranja, que representa a Fase 2 de abertura gradual para a economia.


A dúvida que fica é como a mudança deve afetar as diferentes regiões de São Paulo, com suas particularidades e realidades distintas, tanto sociais como geográficas.

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