• Francisco Toledo

Coletivo de torcedores palmeirenses faz doações e prega luta pela democracia

Formado por torcedores palmeirenses em São Paulo, o coletivo autodenominado Porcomunas realiza, diariamente, a entrega de 50 marmitas nos bairros do Bixiga, Bela Vista e Liberdade durante a pandemia de coronavírus na capital.


Idealizado por Marcos Gama, 75, conselheiro do Palmeiras, o grupo surgiu depois de uma conversa com o ex-presidente do clube, o economista e professor Luiz Gonzaga Belluzzo: "O Palmeiras tem uma fama de ser conservador e até mesmo fascista. Na época em que o Belluzzo foi presidente ele estava preocupado com isso", diz Gama.


O fundador do coletivo palmeirense sempre esteve ativo na política brasileira. Hoje aposentado, é autor do livro Vila Buarque, que conta com o prefácio do ex-ministro José Dirceu (PT).


"Na época da ditadura eu tinha uma casa ali perto da Rua Maria Antônia. Na época a minha casa era um ponto de encontro entre os estudantes e ativistas contra a ditadura. Acabei montando um bar chamado Calabar, que reunia essa galera"

Marcos Gama, fundador do coletivo Porcomunas - Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Hoje, Gama enxerga a necessidade de voltar para a base dos tempos de ditadura. Após aposentar, vendeu tudo o que tinha e comprou uma casa na região da Liberdade. Lá, criou-se um novo espaço para torcedores progressistas e palmeirenses, que hoje produzem as marmitas para doações na cozinha do estabelecimento.


Nada disso seria possível sem uma rifa online, onde o coletivo vendeu uma camiseta do Palmeiras com o emblema Ditadura Nunca Mais. Segundo Lucas Pereira, 32, a ação começou logo na primeira semana da pandemia no Brasil, em março: "Mapeamos os bairros do Bixiga, Bela Vista e Liberdade, onde existe uma população de rua nos viadutos que cortam essa região na cidade", diz o torcedor. O grupo também realiza doações em casas de amparo, que recebem moradores em situação de rua e grupos vulneráveis, como a população trans.


Membros do coletivo preparam as marmitas - Foto Gustavo Oliveira / Democratize

Muito além do Palmeiras


O Porcomunas não é o único coletivo de torcedores que colocou a mão na massa para ajudar a população mais carente durante esse período de pandemia.

"A Manche Verde fez algo, inclusive com o apoio dos jogadores. Além deles, a torcida antifascista do Flamengo, como também a Democracia Corintiana tem feito bastante coisa, como atendimento psicológico online para quem precisa", nos disse Lucas.


Mesmo com as ações, os membros do coletivo não estão muito esperançosos em relação ao futuro no futebol. Segundo Alan, que também é membro do coletivo, o próprio Palmeiras não deve "abrir mão dos seus assentos por causa de uma questão sanitária". Para eles, o povo pobre é quem pagará pela crise, com os ingressos cada vez mais caros.


Mesmo assim ainda existe uma esperança. Para Lucas, o objetivo do coletivo é inspirar uma guinada democrática nas grandes torcidas organizadas, o que seria algo com imenso poder de repercussão, devido ao seu poder de mobilização: "Podemos fazer uma revolução social através do futebol", diz.


Tanto Alan quanto Lucas ainda conseguem matar a saudade do futebol, mesmo com o calendário suspenso durante a pandemia de Covid-19 no Brasil, paralisando os torneios nacionais e internacionais: "Eu, particularmente, tenho assistido alguns jogos antigos pelo Youtube. Partidas dos anos 90, começo dos anos 2000 para matar a saudade", diz Lucas, antes de mais uma entrega de marmitas na região do centro de São Paulo em plena sexta-feira à noite.


Enquanto o futebol não volta, quem protagoniza a vida real são os torcedores.



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