• Francisco Toledo

Classe artística vive choque com dois inimigos: a pandemia e Bolsonaro

Um dos setores mais afetados pela pandemia de coronavírus no Brasil, a classe artística vive embate com outro inimigo desde 2016: a política do governo federal. Se antes essa figura era representada pelo governo do ex-presidente Michel Temer (PMDB), desde 2019 ela é materializada em Jair Bolsonaro (sem partido).


Se não bastasse a extinção do Ministério da Cultura, a pasta, que se tornou apenas uma Secretaria, vive um vai e vem de representantes polêmicos que deixaram marcas traumatizantes para o setor. A atriz Regina Duarte foi a última a deixar rastros, sendo exonerada oficialmente vinte dias após deixar o seu cargo. "Ufa", disse a ex-global nas redes sociais.


A mudança ocorreu em plena pandemia de coronavírus em curso no Brasil. A resposta para ajudar a classe artística não veio do Planalto, e sim do Congresso. O Senado aprovou no começo de junho, em sessão virtual, um projeto de lei que destina R$3 bilhões para socorrer o setor durante a pandemia. O nome da PL é Lei Aldir Blanc, em homenagem ao letrista e escritor que morreu em maio vítima da Covid-19.


Mas existe um porém: a proposta depende da sanção presidencial para ser colocada em prática. O presidente, conhecido por sua oposição generalizada à cultura brasileira, deve dificultar o andamento do projeto, com base no que dizem seus aliados nas redes sociais.


Em quase três meses de pandemia, a única ação do Executivo em prol do setor foi a elaboração de uma nova instrução normativa para o funcionamento da Lei Rouanet, permitindo maior flexibilidade no prazo e na prestação de contas de projetos previamente aprovados. E mais nada.


Por isso, a realidade de quem vive de cultura parece refém não apenas de um inimigo. Conversamos com artistas e gestores culturais para entender o momento e a perspectiva para o futuro.


"Não encaramos essa crise apenas como uma crise sanitária, mas uma crise sobretudo política"


Formado pelos irmãos Fernando e Felipe Soares, o grupo 2DE1 lançou recentemente a sua última obra de nome "Ferida Viva" repleto de angústias sobre o futuro incerto proporcionado pelo momento político e social no qual o país atravessa. Moradores da região central de São Paulo, uma das mais afetadas pela pandemia de coronavírus na capital, eles vivem de perto mais um elemento dos tempos atuais: o isolamento social.


Mesmo com um ano de 2019 difícil, o grupo ainda trabalhava na produção do último álbum, shows e clipes. O cenário, por mais assustador que fosse, era de que 2020 seria o ano de rodar o país com o álbum nas mãos. Não foi assim. "Com a pandemia, tudo meio que ficou em suspenso, e consequentemente a remuneração a partir dos shows à serem realizados", nos contou a banda.


O sentimento incerto sobre o futuro acompanha o grupo desde a eleição de Bolsonaro: "O governo já vinha num desmonte forte da Cultura desde muito tempo", dizem. Mas, "o mínimo que se espera do estado num momento como esse, é a preocupação com o bem-estar social e a sobrevivência do seu povo, e isso não só para com a cultura. O Estado deve garantir as condições para que as pessoas possam ficar em isolamento social sem perder seus salários, empregos e outros meios de sobrevivência". Eles defendem a criação de uma renda básica mensal até o término do ano, algo similar ao projeto e bandeira política do vereador e ex-senador Eduardo Suplicy (PT), tão debatido nos dias atuais por especialistas e economistas.


Mesmo isolados, a dupla vive o benefício de dividir o mesmo teto, o que facilita o processo criativo mesmo em tempos de quarentena: "Não estamos nos pressionando para produzir nada em específico, mas isso acaba ocorrendo naturalmente, a gente acaba escrevendo alguma coisa, produzindo alguma coisa. Não vemos a pandemia como algo inspirador, é uma realidade muito triste, a gente tá tentando produzir sobre outras coisas ou sobre essa saudade gigantesca, mas não tem muito como fugir da realidade em que estamos inseridos".


"O Estado deveria olhar pra cultura com a complexidade que a cultura merece"


Presidente do Instituto Hilda Hilst, o sociólogo Daniel Fuentes também acredita que o atual governo federal não tem lidado de forma apropriada com a pandemia e suas consequências com a cultura brasileira. A escritora, uma das mais brilhantes mentes da poesia e dramaturgia brasileira, deixou após a sua morte a Casa do Sol, sua residência onde viveu de 1966 até 2004. Lá, o Instituto realizava residências artísticas e eventos para promover a obra da autora. Tudo isso ficou em suspenso.


"Estávamos em um período muito fértil, devido às parcerias que construímos desde a Flip (Feira Literária Independente de Paraty), em 2018", nos contou Fuentes. Para celebrar os 90 anos de Hilda, o Instituto chegou a programar um grande calendário de atividades para 2020. A pandemia chegou e paralisou uma enorme parte desse projeto, além de adiantar a Curadoria Hilst, plataforma online de divulgação da obra da poeta.


Financeiramente, o impacto foi brutal: "As receitas do instituto literalmente caíram a zero, de um dia para o outro". As receitas que partiam de direitos autorais, eventos de outros artistas e o mercado literário despencaram. As visitas guiadas na Casa do Sol deixaram de ocorrer, e a resposta do Estado não chegou.


"O Estado deveria olhar pra cultura com a complexidade que a cultura merece. O mecanismo que vai socorrer uma grande editora ou produtora não é o mesmo que vai ajudar o pequeno produtor de cultura, o poeta, o artista plástico. O universo da cultura é de uma desigualdade imensa"

Segundo Fuentes, o instituto espera faz dois anos o parecer final de uma prestação de contas de um projeto feito através da Lei Rouanet, "ele não foi sequer analisado". Para ele, a burocracia em torno da pasta da cultura foi duramente afetada pela extinção do ministério, além do troca-troca na secretaria nos últimos dois governos Temer e Bolsonaro.


Enquanto a pandemia chega ao seu pico no Brasil, passaram-se três meses e a resposta do governo federal continua ineficiente - inclusive no setor da cultura. Resta saber qual será o impacto a longo prazo, não apenas da pandemia, como também de um governo que deverá continuar pelos próximos dois anos e sem qualquer projeto voltado para o setor.

101 visualizações

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Todos os direitos Reservados