• Francisco Toledo

Candidato youtuber do MBL usa tática bolsonarista para atacar padre

O youtuber Arthur do Val, deputado estadual e um dos principais membros do Movimento Brasil Livre (MBL), utilizou-se de táticas bolsonaristas para atacar o Padre Júlio Lancellotti, da Pastoral do Povo de Rua de São Paulo. Se no começo o objetivo era questionar a ação do pároco da Igreja São Miguel Arcanjo, no bairro da Mooca, após a polêmica os ataques ficaram cada vez mais sérios - e problemáticos.


Candidato pelo partido Patriota para a prefeitura da capital, o youtuber apostou no discurso de tolerância zero bolsonarista com a Cracolândia, local conhecido nacionalmente por abrigar pessoas em situação de rua, com intenso tráfico de drogas, no centro de São Paulo. Segundo o deputado, as ações do padre incentivam que os usuários de droga continuem na região.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Postura eleitoreira para caçar votos


O MBL, grupo no qual Arthur pertence, teria se distanciado do bolsonarismo em meados de 2019, após apoiar intensamente a campanha do ex-capitão do exército para a presidência. Em posts no Twitter, o líder do grupo Renan Santos critica as atitudes truculentas e extremistas do grupo bolsonarista e do presidente. Recentemente, o movimento afirmou ter feito uma auto-crítica no sentido de se desculpar por atitudes do passado, antes do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT).


Vale lembrar que, poucos anos atrás, o MBL realizou ações radicais e questionáveis para atingir a camada ultra-conservadora da sociedade, como o protesto realizado na frente da residência do então ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Teori Zavascki. Pouco tempo depois, o ministro faleceu em um acidente de avião, no começo de 2017.


Entretanto, a mudança de postura parece ter durado pouco tempo. Aproveitando o ano eleitoral e o espaço deixado pelo fracasso de um candidato bolsonarista em São Paulo, o grupo lançou o youtuber Mamãe Falei, Arthur do Val, para a prefeitura. Puxando o discurso para a extrema-direita, promessas populistas como o fim da cracolândia surgem, quebrando o leque para possível diálogo e ignorando a opinião de especialistas. Vale lembrar a tentativa frustrada do ex-prefeito e atual governador João Doria (PSDB) em acabar com o uso de drogas na região. Muitos usuários e moradores de rua acabaram migrando para outros bairros do centro, como a Vila Buarque e Santa Cecília, prolongando o problema ao invés de soluciona-lo.


Destruindo reputações pela visibilidade


Outra postura tipicamente associada ao bolsonarismo, que foi utilizada pelo MBL e pelo deputado youtuber, foi a destruição de reputações com fins políticos e eleitorais.


Após o Padre Júlio denunciar as ofensas e agressões verbais sofridas por Arthur, o deputado logo se mobilizou junto ao grupo para divulgar um vídeo de uma reportagem nas redes sociais.


Trata-se de uma reportagem de 2017, onde o ex-interno da FEBEM, Anderson Marcos Batista, acusa o padre de pedofilia. A acusação surgiu após o padre Júlio afirmar, para o jornal Folha de S. Paulo, que demorou três anos para denunciar o esquema de Anderson contra ele. Na realidade, Anderson e sua esposa, Conceição Eletério, estavam extorquindo o padre. Foi essa a conclusão da Justiça de São Paulo, que condenou o ex-detento e sua parceira a sete anos e três meses de prisão.


De acordo com a acusação do promotor Eder Segura, tanto Anderson quanto Conceição ameaçaram "dar um tiro na cabeça" do padre caso ele não pagasse dinheiro para os dois. Uma câmera de segurança de uma rua no bairro do Belenzinho filmou a abordagem agressiva do casal ao padre, segundo reportagem da Folha em 2011, data na qual ambos foram condenados.


O MBL ignorou a condenação, soltando o vídeo de forma aleatória nesta terça - como se o caso ainda estivesse em aberto.


Vale lembrar o partido de Arthur, o Patriota, é o antigo PEN (Partido Ecológico Nacional). Presidido pelo polêmico Adilson Barroso, que teve cinco parentes na Executiva Nacional da antiga legenda. Sua esposa, Rute Oliveira, acumulava a função de Primeira Secretaria do partido, dirigindo a diretoria financeira da fundação da sigla. A polêmica vai além: Barroso costuma usar uma de suas propriedades para realizar as convenções da legenda, uma chácara em Barrinha, no estado de São Paulo.


Segundo o site do Senado, Barroso alegou a nomeação dos parentes "por falta de opção".

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