• Gustavo Oliveira

Brasil atinge a triste marca de 100 mil mortos pela COVID-19


Foto: Gustavo Oliveira / Democratize


No momento em que essa reportagem for publicada pelo Portal Democratize, o Brasil estará vivendo o período mais triste dos últimos tempos, tendo enterrado mais de 100 mil brasileiros e brasileiras vítimas da COVID-19.


O Portal Democratize se solidariza com todas as famílias e amigos que perderam pessoas importantes para o corona-vírus.


O Portal Democratize agradece à todos os profissionais de saúde da rede privada e também do SUS (Sistema Único de Saúde) pelo empenho e dedicação no gerenciamento da crise sanitária mais avassaladora que o país já enfrentou. Obrigado!


O teste positivo


Entre acordar com sintomas do corona-vírus até a primeira consulta médica um longo intervalo de seis dias. Busquei atendimento na UBS (Unidade Básica de Saúde) Dr. Manoel Joaquim Pera, que fica no bairro Vila Madalena, zone oeste de São Paulo. De casa até o Posto de Saúde, um trajeto de um quilometro e meio optei por faze-lo a pé, evitando ruas de grande movimento de pedestres.


No posto o clima frio de ar gelado te mantem apreensivo, preocupado. Observo cada movimentação de pessoas de jalecos brancos transitando no corredor de um lado para o outro. Sou chamado para dentro do consultório – “Boa tarde Gustavo tudo bem? O que você está sentindo?” diz o doutor com seu sotaque carioca.

Explico meus sintomas à ele dor de cabeça, dor de garganta, coriza e o que mais me preocupou nos três primeiros dias de sintomas a dor nas costas na altura do pulmão direito, doía muito ao encher o peito de ar. O doutor carioca não pensou duas vezes – “Bora fazer o exame PCR (Proteína-C Reativa), tudo indica ser COVID-19!”


Após ser muito bem atendido pelo SUS (Sistema Único de Saúde) volto pra casa com a promessa de que o resultado do exame PCR sairia dali dois dias. E sim, testei positivo para o corona-vírus. Fui acometido por sintomas leves do vírus porem o suficiente para me deixar preocupado nos dias seguintes ao resultado.

Me isolei completamente por três longas semanas, apenas com as companhias virtuais dos amigos, livros e remédios. Senti falta dos meus pais, do sol, de fotografar; não foram dias fáceis. Por fim tudo correu bem para mim que escrevo este texto.


Com a ciência não se discute


Foto: Gustavo Oliveira / Democratize


Trabalhador de um dos principais complexos de saúde da América Latina, localizado na zona oeste da cidade de São Paulo, o médico intensivista que vamos chama-lo de “Pedro” nesta reportagem para que não sofra represálias do Governo do Estado de São Paulo nos contou um pouquinho da rotina da UTI deste hospital.


Logo que responde a reportagem do Democratize por aplicativo de mensagens “Pedro” diz – “Desculpa a demora pra responder à mensagem, acabei de sair do meu plantão no hospital e hoje foi um dia bastante pesado”.


D. Iniciamos a reportagem perguntando para o médico como está o psicológico dos profissionais da saúde nesse momento?


“Com a sobrecarga de trabalho, houve também uma sobrecarga psicológica, ainda mais sabendo que a tendência das UTI’s é ter cada vez mais casos graves. Isso faz com que fiquemos um pouco mais ansiosos durante os plantões. Sabemos que vai demorar a passar, infelizmente isso ainda vai longe e não resta outra coisa senão ter paciência durante a jornada de trabalho, concentração máxima para cuidar dos pacientes da melhor forma possível. Aonde trabalho estamos tendo todo um suporte psicológico para lidar com o fator emocional. Tem sido muito importante esse apoio”.


D. E a rotina dentro das UTI’s, o que vocês perceberam sobre o corona-vírus nesses quatro meses e vinte sete dias de pandemia?


“Percebemos que nas últimas três semanas o número de casos voltou a aumentar razoavelmente, então as UTI’s que estavam com leitos disponíveis voltaram a ficar cheias e vieram casos muito graves, por exemplo, tivemos alguns pacientes no início da pandemia que continuam na UTI ainda se recuperando, alguns com traqueostomia, ainda dependentes de ventilação mecânica. É um processo de reabilitação muito lendo. O vírus castiga de mais o paciente infectado”.


D.O que tem dado esperança e força à vocês médicos para continuar?


“Vejo pacientes que tiveram o quadro clinico muito deteriorado, com fraqueza muscular, a parte neurológica sem se recuperar, que enfim estão melhorando. Tive um colega médico que ficou em estado grave, se internou no fim de junho e chegou a ficar entubado, com ventilação mecânica, precisou de hemodiálise e suporte respiratório extracorpóreo. A melhora foi muito lenta, ele precisou ficar sedado e aos poucos ele está melhorando. Está recuperando a consciência, embora ainda esteja na UTI. Isso nos dá força de continuar nosso trabalho. Sabemos que essa pandemia não vai passar num estalar de dedos, sabemos que ainda ficaremos muito tempo com pacientes graves da Covid-19, porem estamos dispostos a combater esse vírus e salvar vidas.


D. Algum familiar seu foi infectado pelo corona-vírus?


“Minha mãe. Graças a Deus ela não apresentou uma forma grave da doença, não precisou ser internada. Mas sim, ela teve uma pneumonia por COVID-19, então nas últimas duas semanas, fora o cuidado com os pacientes no hospital, tive que ficar atento a qualquer manifestação de gravidade. Lógico que a gente fica preocupado, sei quais são as complicações possíveis.

Muitos doentes ficam em estado grave, então existe um risco. Minha vida se restringe a hospital e ficar atento aos sintomas de minha mãe”.


D. Como os médicos vem enxergando a maneira com que o Governo Federal vem lidando com o combate a pandemia?


“Isso nos entristece. Nós sabemos da gravidade que o vírus emprega a vida, eu mesmo trabalhei em um plantão onde seis pessoas vieram à óbito. Uma seguida da outra. Ver o presidente ir a público em horário nobre pedir com que as pessoas voltassem a viver normalmente, nos deixou muito preocupados porque os casos graves não paravam de aumentar naquele momento. Naquele momento passou pela minha cabeça tipo “O que eu estou fazendo?” mais independentemente do que dizem os políticos; nós fizemos um juramento que é salvar vidas”.


D. Vocês tem feito uso da polemica cloroquina nas UTI’s?


“Aonde eu trabalho a ordem é não usar, nosso superior nos instruiu a não utilização desse medicamento. Não tem como fazer a utilização de um medicamento que não há comprovação cientifica que ele de fato ajude no quadro clinico do paciente. Lá nós não utilizamos”.


D. A OMS (Organização Mundial da Saúde) disse não ser possível a criação de uma vacina cem por cento segura ou talvez que nunca tenhamos uma vacina segura, como você profissional da saúde enxerga essa fala?

“Eu vi isso, acredito que essa fala seja para que as pessoas sigam tomando os cuidados básicos, tenho visto um clima de que a pandemia já passou nas ruas; pessoas sem máscaras, volta de bares e comércios. Percebo essa fala pessimista para que as pessoas não baixem a guarda contra o vírus. Eu mesmo fui um dos profissionais de saúde que fui vacinado experimentalmente, espero que funcione, torcemos por isso, é uma injeção de ânimo”.

D. Por fim gostaria de deixar um recado a sociedade?

“Acho que só reforçar mesmo, se você pode ficar em casa, o faça. Se você precisa sair para trabalhar, utilize máscara, carregue o álcool em gel, lave as mãos, mantenha distância das outras pessoas e evite os ambientes fechados. Caso venha sentir alguns sintomas procure um médico. Acho que é só isso”.


A perda de amor


Foto: Gustavo Oliveira / Democratize


Luiz Eduardo Silva, 56 anos, era morador do bairro do Jardim Ângela, extremo sul de São Paulo, trabalhava como motorista de uma empresa de calçados no centro de São Paulo. Preto, como gostava de ser chamado pelos amigos mais íntimos, gostava de uma roda de samba, futebol e churrasco com os amigos, Corintiano fanático era um homem carinhoso e prestativo que gostava de ajudar a vizinhança na rua onde morava. Pai de três filhos homens, era casado com dona Maria da Conceição Ferreira da Silva.


Maria nos conta que o destino da família começou a mudar no dia 15 de julho, uma quarta-feira, aonde seu Luiz Eduardo acordou para trabalhar não se sentindo bem de saúde – “Ele acordou no horário de ir pro trabalho e reclamou de uma forte dor de cabeça, mais ele já vinha com sintomas de gripe. Eu pedi que ele não fosse para o trabalho mais o Preto era teimoso, quis ir mesmo assim”.


Hipertenso e diabético seu Luiz Eduardo resolveu parar no hospital do caminho do trabalho aonde entrou para se consultar sobre uma possível gripe e de lá não saiu com vida.

“Ele me ligou e disse que havia parado no hospital para se consultar porque a dor de cabeça não passava. Eu disse que tudo bem. Se passaram algumas horas e ele ligou de novo dizendo iria ficar internado porque era essa peste de vírus maldito. Fui com meu filho mais novo pro hospital, e chegando lá não deixaram eu entrar pra vê-lo. Falaram que a princípio ele estava bem e me pediram pra que eu voltasse para minha casa”.


Dona Maria da Conceição acatou o pedido do médico e voltou com o caçula para sua casa. Seu Luiz Eduardo ficou três dias internado com os dois pulmões muito comprometidos.

“Recebi uma ligação dele no dia 18 de julho, sábado, ás 10 horas da manhã, ele me disse com a voz cansada que iria ser entubado mais que eu não me preocupasse porque tudo iria ficar bem. Ele me pediu pra que eu rezasse para Nossa Senhora Aparecida, a quem somos muito apegados e devotos, me disse pra manter a calma e cuidar dos meninos, e foi o que eu fiz”.


Dona Maria da Conceição segue – “No domingo dia 19 de julho ás 6 horas da manhã recebi uma ligação do Hospital dizendo que o Preto não havia resistido. Eu perdi meu marido”.

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