• Gustavo Oliveira

As incertezas das mulheres grávidas durante a pandemia

Reportagem de Talita Coutinho e Gustavo Oliveira


Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde) a cada 10 mortes de mulheres grávidas no mundo por coronavírus, 8 dessas mortes ocorrem em território brasileiro. Com o governo federal tomando decisões que rumam à contramão do que dizem especialistas e cientistas, esse número pode ser ainda maior devido a sub-notificação das mortes no país.


O problema se agrava ainda mais quando o percentual de contágio da doença é mais alto que o normal e acaba colocando em risco quem depende, com frequência, dos atendimentos das UPA’s (Unidade de Pronto Atendimento) e UBS’s (Unidade Básica de Saúde), caso das mulheres em período de gestação.


No início, quando o novo coronavírus adentrou o solo brasileiro, houve uma tentativa fracassada dos governos estaduais e municipais de isolamento social e fechamento parcial do comércio; isolamento esse que não aconteceu. Enquanto nos bairros de classe média/alta se fez o isolamento, bairros periféricos e comunidades foram largados a própria sorte.


Falhar no isolamento custou centenas de milhares de vidas em São Paulo. Os hospitais ficaram próximos de sua capacidade máxima, e expôs pessoas que dependem do Sistema Único de Saúde ao risco de contagio.


As mulheres que estão em período de gestação e dependem exclusivamente do SUS tem se colocado em exposição e correm risco de contagio ainda maior pelo novo coronavírus, por terem de fazer o acompanhamento médico presencial nos hospitais. Vale ressaltar que o SUS é público, e é referência no tratamento da pandemia no Brasil curando até o momento mais de 1,4 milhões de pessoas.


A periferia mais exposta

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

O risco de contagio para os moradores da periferia e comunidades é ainda maior; por morarem em casas muito próximas umas das outras o risco da proliferação do novo coronavírus é consideravelmente grande; sem falar que 48% da população do país vive sem saneamento básico ou coleta de lixo, sendo que 16% da poluição não recebe água tratada. Além disso, a população periférica não teve a oportunidade de fazer seu isolamento social e continuou infectando e sendo infectada nos transportes públicos que ligam a periferia ao centro expandido da capital.


Vale lembrar que o presidente Jair Messias Bolsonaro (Sem Partido) e seu Ministro da Economia Paulo Guedes fizeram de tudo para dar um Auxilio Emergencial ao pobre num valor irrisório de apenas R$200,00 - que seriam pagos pela Caixa Econômica Federal; foram os parlamentares de oposição e o Presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia (DEM) que aprovaram o Auxilio Emergencial no valor de R$600,00 para desempregados, autônomos e beneficiários do Bolsa Família. Para mulheres que são mães o valor é de R$1.200,00 reais.


Incertezas do momento


O Democratize entrevistou mulheres que estão em período de gestação de diferentes regiões de São Paulo para entender as dificuldades e as angústias de terem que enfrentar os hospitais da cidade de São Paulo durante esse momento de pandemia. Vale ressaltar que as entrevistas foram feitas virtualmente para evitar qualquer tipo de contato com as entrevistadas.


É segunda-feira quando entro em contato com Kamilla Alline Rocha Santos, 31 anos, grávida de 34 semanas de seu segundo filho. A cozinheira e confeiteira reside no bairro Jd. Alvorada, zona oeste de São Paulo.


Começo a entrevista perguntando para Kamilla em que mês e como ela descobriu sua gravidez – “Eu descobri que estava grávida no dia 16 de dezembro de 2019, dois dias antes eu estava me mudando de casa, porque eu morava de aluguel e tinha ficado pesado pra mim que estava desempregada. Então resolvi voltar para a casa do meu pai pra tentar juntar um dinheiro pra poder ter o nosso canto né. Durante a mudança, eu estava ajudando a carregar as coisas; e senti um mal-estar; cheguei a cogitar estar grávida, mas não acreditei, eu tenho um ovário só, tinha sido diagnosticada com um mioma no útero e um cisto no pedacinho do ovário que sobrou... o teste deu positivo".


D. Você conseguiu fazer os acompanhamentos médicos durante sua gestação?


Kamilla: Após a descoberta da minha gravides, eu procurei atendimento no posto né, passei primeiro no Acolhimento, e depois de lá eles encaminham para à consulta médica. Pediram exames de urina, me pediram outros exames e o ultrassom. Devido as datas das consultas serem muito espaçadas no SUS eu optei em fazer o acompanhamento também no plano saúde. Mais eu continuei frequentando o posto de saúde por precaução, caso eu não conseguisse mais pagar o plano de saúde. No plano de saúde eu sempre tive acesso a todos os exames inclusive o pré-natal, mas agora com o corona-vírus eu venho tendo dificuldade pra marcar as consultas, porque as clinicas não estavam atendendo. Eu tive receio de ir também nas consultas, e a médica me pediu que prologasse o tempo entre uma consulta e outra.


D. Como você fez para se proteger durante as consultas?


Kamilla: Como eu falei, eu deixei as consultas presenciais mais espaçadas e tive a opção de fazer algumas consultas on-line ou por telefone do hospital particular; isso me trazia uma segurança, porque em caso de uma dúvida ou uma dor eu poderia ligar e ser atendida. Já as consultas presenciais no plano de saúde estão sendo por horário marcado e sem pessoas na sala de espera. Já no posto era mais complicado, normalmente a sala de espera estava lotada e causava um certo medo.


Uma coisa que vale ressaltar, é que eu evitei de usar o transporte público né. O posto é aqui próximo, até certo período eu ia a pé. Já o plano de saúde fica na Vila Mariana, é longe pra mim. Em tempos normais iria de ônibus ou metrô, com o corona pedi pra mãe, tio, amigo dar uma carona pra não perder as consultas.


D. Como está sua cabeça sabendo que enfrentará um hospital para ter seu filho?


Kamilla: Eu estou bem preocupada com o parto, porque mesmo se tratando de hospital particular você acaba percebendo muitas falhas; você não sabe quem está contaminado e quem não está contaminado; agora você percebe que está muito leve a situação né, já pode visita, já pode acompanhante, eu posso receber visita na internação e elas podem ficar por uma hora. Eu me informei como está no hospital público e está muito diferente, não pode visita, não pode acompanhante e o pai só pode entrar na sala de parto no momento em que a criança já estiver nascendo. Eu vou ter no particular, eu fiquei mais relaxada em saber que não estarei só no momento do parto, mais ao mesmo tempo tenho visto tanta coisa acontecendo, escutado que tiveram gestantes que faleceu por conta do vírus, que teve recém-nascido que pegou o vírus; preocupa muito.


D. Quais os cuidados você irá tomar quando o bebê vier pra casa?


Kamilla: Acho que o principal cuidado comigo e o bebe no pós é a visita, todo mundo quer ver, pegar, sentir a criança; eu acho que a gente precisa dar tempo ao tempo principalmente com toda essa loucura. Eu vou me prevenir porque é a melhor coisa a se fazer à mim ao meu filho e minha família.


Gravidez, pandemia e despejo

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Janaina Xavier, 40 anos, se desdobra para cuidar dos oito filhos e da questão jurídica da ocupação onde divide moradia, em um prédio com 21 famílias, cerca de 60 moradores; na região do Campos Elísios, centro de São Paulo.


Tomando todas as medidas de proteção contra o novo coronavírus, Janaina me explica que na ocupação só adentra quem faz o uso de máscara e que em seu apartamento não é diferente – “Vai pra rua? Mascará! Chegou da rua álcool em Gel nas mãos e direto pro banho. Preciso me cuidar em dobro, sou eu e o bebe né?” diz Janaina.


D. Você está conseguindo fazer os acompanhamentos preventivos para ter uma gestação segura?


Janaina: Sim, o posto aqui é muito bom, faço o acompanhando seguindo o cronograma de consulta que eles me passam.


D. Como é viver a incerteza de um despejo gravida e passando por uma pandemia tendo que encarar um hospital para ter o filho?


Janaina: Ao mesmo tempo que eu estou preocupada eu tento me manter tranquila. Porque eu tenho medo de ir para hospital e estando lá chegar a notícia de que tem que sair todo mundo da ocupação. Pra onde que eu vou com minha família e um bebe recém-nascido? Porque se amanhã ou depois chegar o batalhão da polícia aqui a gente vai ter que ir pra rua. Esse juiz precisa entender e quebrar essa liminar de despejo, são pessoas trabalhadoras e de família aqui, apenas isso.


O teste positivo durante a gravidez

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Para Mariane Galvani, 25 anos, a gravidez não fora planejada. A bibliotecária contou para a jornalista Talita Coutinho que ela não esperava ficar grávida, muito menos durante uma pandemia.


Eu havia criado muitas expectativas para quando eu engravidasse, foi até um pouco frustrante porque agora eu vou ter que me adaptar a uma nova realidade; na verdade eu acho que todo mundo né, quem optou por casar ou fazer algum evento importante, acabou lidando com essa frustração de ter que mudar os planos. Eu não posso sair e fazer uma caminhada; eu me sinto com muito medo; fora que o enxoval eu não vou poder comprar pessoalmente, não vou poder fazer chá revelação e nem chá de bebe”.

Nossa repórter perguntou se Mariane está cuidando de saúde emocional durante esse período – “Sim estou fazendo terapia; antes de eu saber que estava gravida, eu estava passando por vários turbilhões de emoção; então eu achava que eu estava com algum problema, eu estava entrando em depressão. Então fizemos a analise corporal; fizemos vários tipos de intervenções pra entender o que estava acontecendo comigo; e claro que tudo on-line pra evitar o contato; e no final das contas eu estava gravida”.


D. Como acha que foi infectada pelo coronavírus?


Mariane: Eu comecei o pré-natal um dia depois que eu descobri que estava gravida, eu precisei ir pro hospital e tive que andar de um andar pro outro, acabei ficando bastante tempo lá dentro, então minha médica acredita que a exposição ao hospital tenha me infectado. Mesmo infectada continuamos as consultas online.


Quando eu senti os sintomas de gripe, eu achei que fosse algum efeito colateral de um remédio que eu estava tomando; eu cheguei a perguntar para a doutora se o remédio havia baixado minha imunidade, ela disse que iriamos acompanhando. Isso foi numa sexta-feira; no domingo e segunda-feira eu tive febre, eu fui pro hospital, mas só na terça-feira eu consegui fazer o teste da COVID-19. Deu positivo; o meu mundo caiu, em uma semana eu testei dois positivos, um pra gravides e pra doença. Tive medo de morrer.


D. Quais sintomas você sentiu?


Mariane: Eu tive muito medo porque minha vó e minha tia são enfermeiras né, elas me diziam o tempo todo pra não ficar por muito tempo deitada pra não ter uma pneumonia, dizia que o pulmão tinha que funcionar. Eu fiz o teste no SUS, foi muito rápido, me atenderam muito bem, me deram prioridade pelo fato de eu ser gestante. Eles me acompanharam muito de perto e me deram vários tipos de sintomas que eu poderia ter, como dor de cabeça, perda de olfato e paladar, dor nos olhos, dor de cabeça inclusive a pneumonia que minha vó tinha falado. Mais os meus sintomas não evoluíram muito rápido, eu tive febre, controlei ela com paracetamol e fui controlando o COVID. Eu não podia ficar deitada mas eu me sentia cansada o tempo todo, eu não podia sair do quarto, foi horrível tive medo de perder o bebê.


D. Como foi receber a notícia de que você e o bebe estavam bem?


Mariane: Eu resolvi não expor para as pessoas que eu tive a COVID-19 pra não gerar preocupação, informei apenas os familiares e os amigos mais próximos. Eu rezei muito, minha família me ligava todo dia pra saber como eu estava e acompanhar tudo que estava acontecendo comigo e com o bebe, foram dias muito complicados, de verdade eu achei que eu morreria ou bebe morreria, foi difícil.


Logo depois que a médica liberou, disse que eu não contaminaria ninguém, minha obstetra me encaminhou pra um ultrassom e ai foi lindo, o bebe estava bem, se mexendo bastante, muito saudável, foi muito bom; nos emocionamos bastante e graças a deus estava tudo certo.


D. Você segue tomando cuidados para não se infectar novamente?


Mariane: Sim, claro. Eu tenho medo ainda né, eu não sei se dá pra pegar de novo, ou melhor, ninguém tem certeza disso e sim continuo me cuidando. Eu quero marcar uma tomografia pra ver se ficou alguma mancha no pulmão porque eu tive muita tosse, eu ainda me sinto ofegante pra falar; quero ver se eu fiquei com alguma sequela dessa doença.

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