• Gustavo Oliveira

Anjos da noite, a saga dos voluntários para levar comida a quem necessita

Nossa reportagem acompanhou na madrugada deste último domingo (5) os voluntários que alimentam e acolhem a população de rua na zona central de São Paulo.


O encontro dos voluntários acontece na esquina das ruas Carlos Souza Nazaré e Barão de Duprat, próximo ao Mercado Municipal no centro de São Paulo. Organizado pelo servidor público do Ministério da Agricultura há 44 anos, Kaká Ferreira, de 67 anos, as doações ocorrem por mais de três décadas.


Carismático, atencioso e querido pela população de rua, Kaká é chamado pelo nome e sabe da demanda de cada pessoa em situação de rua por onde os voluntários passam.


Na madrugada do domingo, cerca de 25 voluntários participaram da ação para ajudar a esquentar e alimentar a noite dos moradores vulneráveis do centro da cidade. Munidos com um carrinho com diversos kit-lanches (pão com presunto e queijo, um refrigerante e um doce), água, cobertas e roupas, os voluntários abordam a população de rua e distribuem os kits.


A ação que nossa reportagem acompanhou começou na rua Barão de Duprat e só foi terminar na Rua Libero Badaró próximo ao viaduto do Chá. Foram entregues 800 kit-lanches, 28 cobertores, além de roupas de frio. Kaká ainda ressalta que – “Normalmente nós entregamos marmitas, e não lanche. Com o problema do coronavírus, nossas cozinheiras, que são senhoras de idade, não estão trabalhando por se tratarem de grupo de risco, então optamos pela entrega de lanches para continuar dando andamento nas ações”.


Anjos da noite, história

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Pergunto a Kaká como surgiu o Anjos da Noite e sua história com a população de rua, que conta – “Vamos voltar no relógio do tempo, vamos até o ano de 1989, mais precisamente no dia 22/08/1989. São Paulo estava com uma temperatura de 4 graus garoando, a sensação térmica era próximo de zero. Eu estava saindo do trabalho na rua Amaral Gurgel, esquina com a Marquês de Itu; um senhor me pediu ajuda; ele estava vestido com um shorts, uma camiseta toda rasgada e descalço; eu fiquei muito chocado com aquela cena; resolvi ajuda-lo; por coincidência eu tinha voltado de viagem e minha mala estava dentro do carro; dei uma toalha para ele se enxugar e dei roupas secas e quentes pra ele e o convidei pra jantar comigo; ele ficou pensativo mas topou”.


Kaká Ferreira segue – “Quando a gente chegou no restaurante eu falei pra ele pedir o que ele quisesse, eu tinha acabado de receber o salário, dava pra dar uma esbanjada (risos); e ele pediu arroz, feijão, batata frita, bife e salada; um prato bem típico de brasileiro né? Conversamos por horas, era um rapaz muito legal e de uma conversa boa, na despedida ele foi até o carro comigo e me estendeu a mão pra mim e disse 'Você é um anjo da noite'". Visivelmente emocionado e com lagrimas nos olhos Kaká continua – “Quando ele disse que eu era um anjo da noite ele me olhou muito firme, mas com aparência serena e uma energia boa que eu não sabia nem o que era. Enfim, fui pra casa pensando naquilo tudo que tinha acontecido e quando dormi sonhei com tudo o que tinha acontecido em um cenário completamente diferente; no sonho tinha uma mesa grande cheia de panelas, e eu de um lado da mesa servindo comida pro pessoal da rua, ai no que fui servir uma cumbuca de sopa quando eu olhei eu reconheci o cara, que me disse – “Eu não te falei que você era um anjo da noite!”. Ai eu acordei do sonho, bem emocionado e fui olhar minha mala pra ver se as coisas estavam lá, e as coisas não estavam, então eu não havia sonhado né?”.


A primeira ação social

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

Kaká nos conta como organizou a primeira ação social com a população de rua – “Esperei o dia amanhecer e liguei pra um amigo meu, José Almato, expliquei pra ele tudo que tinha acontecido na noite anterior e no sonho e falei que criaria um grupo que se chamaria Anjos da Noite, quero sair hoje à noite pra levar comida pra população de rua. Eu não tinha planejamento nem noção nenhuma de como fazer, mas eu estava decidido a sair à noite para entregar comida pra população de rua. O Zeca Almato se animou e veio com a mulher e com as filhas (risos). Eu lembro que fizemos dezenas de ligações pros amigos pedindo pro pessoal ajudar, e deu certo, pessoal chegou com legumes, carne, macarrão; foi um sucesso a arrecadação, fizemos aquela sopa de minestrone, italiano mistura tudo né? Ficou uma sopa maravilhosa, conseguimos atender 100 pessoas na primeira noite. Mas não foi só a entrega de sopa, porque o pessoal repercutiu quando pedimos a doação, então chegava cobertor, sapato, roupa, meia; eu me lembro que tínhamos conseguido uma Kombi emprestada e que ela foi lotada de mantimentos. Esse foi o nosso primeiro trabalho, dia 22 de agosto 1989 e nunca mais paramos”.


Kaká segue contado – “Passados alguns anos nós sentimos a necessidade de nos regularizar a personalidade jurídica da instituição, até pra você pedir e ter um nome né; e ai tínhamos um CNPJ e uma missão, qual é a missão? É resgatar a autoestima das pessoas de rua e possibilitar a reintegração social. Claro que isso é investimento de médio à longo prazo; resgatar a autoestima e reintegrar é uma coisa que só está distante para quem não faz nada, porque quando você dá o primeiro passo você vê que não está tão distante assim, você precisa insistir naquilo que você acredita. Às vezes você vai conversar com o cara e ele não quer nem olhar na sua cara, por que? Precisa de confiança e o que traz confiança é o tempo. Quando você conseguir estabelecer essa relação, ai você pode começar a trazer novos valores, mostrar que existem outras possibilidade de vida, não aquela de ficar na rua, mostrar pra pessoa que não acabou tudo; e pode ser um divisor de águas; mas o Anjos da Noite não impõe uma mudança, o Anjos da Noite propõe; porque nós não estamos na rua pra catequizar ninguém. Nós estamos na rua pra estender a mão pra melhoria da qualidade de vida. E essa postura fez com que nos aproximarmos dos nossos principais clientes, que é o morador de rua”.


Solidariedade Vs Pandemia

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

“Se já era difícil viver na rua antes, imagina em tempos de uma pandemia” – Me contou o morador de rua Luiz Roberto de Arruda, 27 anos, que vive na rua por pelo menos 5 anos. Sem querer entrar em detalhes de sua vida antes da rua, Luiz contou que antes da pandemia, com a população podendo circular normalmente pelas ruas, conseguia comida e uns trocados de forma mais fácil e que agora no período de pandemia, ações como a do Anjos da Noite é de extrema importância pois não está fácil conseguir dinheiro e muito menos comida. – “São anjos né, o que seria da gente aqui largados sem eles”, conta.


Pergunto a Kaká se quando houve fechamento de serviços não essenciais e a instalação da quarentena pelos governos estaduais e municipais as ações continuaram – “Nós não paramos nenhum dia, até porque não houve o lockdown, tivemos fechamento parcial das coisas, não podíamos deixar essas pessoas a ver navios”.


Pergunto a Kaká sobre os cuidados que ele e os voluntários estão tomando para não contraírem o vírus – “Nós não desafiamos a saúde, nós tomamos os cuidados, infelizmente a pandemia nos limitou apenas à entrega das doações, não estamos tendo a proximidade que tínhamos antes, os voluntários com máscara, luvas, alguns com óculos e viseira e o trabalho continua sendo feito”.

Foto: Gustavo Oliveira / Democratize

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