• Gustavo Oliveira

Amparo aos vulneráveis: a realidade de pessoas em situação de rua durante a pandemia da COVID-19

Reportagem por Camila Rosa

Foto de João Damásio

Quem passa hoje pela rua Felipe Sabbag, no centro de Ribeirão Pires, não imagina o quanto ela já foi movimentada. A via, que era conhecida por ser um dos pontos de encontro de jovens devido aos bares e restaurantes localizados na área, tornou-se deserta. Em frente a um restaurante, agora fechado, estava Johnny. O rapaz, de 34 anos, nascido em São Mateus, zona leste da capital, estava sentado enquanto comia depressa um bolo de caixinha que havia ganhado.


O morador em situação de rua olhou de maneira desconfiada quando perguntei como estava a movimentação da cidade “tá tudo vazio, não passa mais ninguém por aqui” admite. A ausência de pessoas na rua é justificada pelo isolamento social.


Com a chegada da COVID-19, a adesão à quarentena foi alta e circulação de munícipes diminuiu bastante. Em abril deste ano Ribeirão Pires alcançou o 5º lugar no ranking do sistema de monitoramento do Governo do Estado de São Paulo, atingindo assim 58% de confinamento – número acima da média registrada em todo o Estado, à época, batendo os 48% - tornando-se referência para outras cidades.


É claro que o clima interiorano da estância turística ajuda. Cerca de 123 mil pessoas moram na cidade que é bem menos movimentada se comparada aos outros municípios que compõe o ABC Paulista, na região metropolitana de São Paulo. A ausência de um shopping center e o comércio moderado entre as ruas trazem um ambiente tranquilo.


Mas, sem pessoas circulando na região central, o auxílio e a assistência à população em situação de rua precisaram ser reforçados. De acordo com a Prefeitura de Ribeirão Pires, desde março - período de início das medidas de combate à pandemia – as ações de assistência foram intensificadas.

Foto: João Damásio

O acolhimento tem sido feito por meio da Associação Acolhida com Esperança, também conhecida como Casa da Acolhida. A entidade conveniada à Prefeitura fica localizada na Rua Everaldo Nascimento de Paula, na altura do número 350, na Vila Bonita, um pouco afastada do centro da cidade.


Os moradores em situação de rua podem procurar o abrigo tanto com o suporte das equipes de Assistência Social, Saúde e Segurança, que realizam rondas nas ruas da cidade e os encaminham para a Casa onde oferecem higienização (banhos), alimentação e até dormitórios. Ou, por demanda espontânea, ou seja, procurando o abrigo por conta própria.

“Lá a comida é boa, tem chuveiro e até roupa se precisar” relata Johnny. A Prefeitura também reforçou os cuidados em relação ao combate à pandemia. As camas foram reorganizadas com uma distância segura, a higienização intensificada e até o isolamento de pessoas do grupo de risco, como idosos, está sendo feito.


Além da Casa da Acolhida, a Prefeitura da cidade, em parceria com uma instituição que não autorizou a divulgação do nome, tem distribuído marmitas as pessoas em situação de rua, de segunda a sexta feira. “A comida é bem gostosa” admite o morador em situação de vulnerabilidade social Chico Bateria.


Chico também percebeu a diminuição de munícipes no centro da cidade desde a chegada da pandemia. O idoso, de 61 anos, passa parte do seu tempo trabalhando como flanelinha em troca de algumas moedas na rua Padre Marcos Simoni, via movimentada próxima a Vila do Doce e ao Ribeirão Pires Futebol Clube.


“A prefeitura ajuda com comida e pergunta se a gente quer ir pra Casa da Acolhida, eu já fui pra lá algumas vezes, mas prefiro ficar por aqui” admite. Chico é um dos poucos moradores de rua que utilizam a máscara facial para se proteger do COVID-19 “essa aqui eu que comprei, tenho contato com muita gente, né?” relata.

Foto: João Damásio

Embora até o momento não tenha sido registrado nenhum óbito referente a moradores em situação de vulnerabilidade social, a preocupação de Chico tem fundamento.


De acordo com o último boletim epidemiológico divulgado pela Prefeitura de Ribeirão Pires, 539 pessoas foram infectadas pelo novo coronavírus na cidade. Do total, 41 pessoas tiveram sua vida ceifada precocemente. Outros 263 conseguiram se recuperar em casa ou tendo alta do hospital, sem apresentar mais sintomas, entre eles um morador de rua que não teve a identidade divulgada.


A Prefeitura de Ribeirão Pires também informou que com a chegada do inverno as medidas de prevenção e segurança dos assistidos pela Casa da Acolhida aumentaram. Além dos métodos citados acima, agora o uso de EPIs (Equipamentos de Proteção Individual), como máscaras e luvas, é obrigatório para voluntários e residentes, assim como a verificação da temperatura.


É claro que com uma cidade menor e uma quantidade baixa de pessoas em situação de rua é mais fácil controlar o contágio. Em São Paulo a situação é diferente. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, desde março, foram registrados 26 óbitos de pessoas em situação de vulnerabilidade social pela COVID-19.


Entretanto, os serviços de amparo e assistência foram reforçados e a Prefeitura, por meio das Secretarias Municipais de Turismo e Assistência e Desenvolvimento Social, iniciaram em abril a Ação Vidas no Centro, que disponibiliza sanitários e banhos para pessoas em situação de rua na região do Centro Histórico. Até o dia 13 de julho foram notificados 432.006 atendimentos.


Camila Rosa é formada em Jornalismo pela Universidade São Judas, tem 21 anos e trabalha como redatora de conteúdo.

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