• Francisco Toledo

A motogirl que enfrenta os aplicativos de entrega e o machismo

A realidade dos entregadores de aplicativo pode ser considerada muito difícil. Além da falta de dinheiros e de uma remuneração justa, muitos estão enfrentando a pior pandemia do século para poder exercer a sua função. Mas quando se trata de uma motogirl a realidade pode ser muito mais complicada.


Elisângela, de 25 anos, participou do terceiro breque dos entregadores de aplicativo neste sábado, em São Paulo. Com a sua mochila personalizada, ela destoava da grande maioria dos participantes do ato, composta por homens. A sua postura e discurso não apresenta qualquer fragilidade: mãe de uma criança de 10 anos, é Elisângela que sustenta a filha e o marido, desempregado por causa da pandemia de coronavírus.


Moradora da região de Interlagos, zona sul de São Paulo, a entregadora montou uma própria plataforma de entregas por causa do descaso dos aplicativos. Elisângela começou a trabalhar com entregas um ano atrás, pelo UberEats - "Trabalhava de final de semana pelo UberEats. Depois de alguns meses eles me bloquearam. Tentei várias vezes entrar em contato mas falaram que o bloqueio era em definitivo. Eles não explicaram a razão, apenas encerraram a parceria". Pouco depois a motogirl passou para outro aplicativo, o Rappi. Não demorou muito e ocorreu a mesma coisa, com a diferença que desta vez não houve qualquer retorno da empresa.


O único aplicativo que ela utiliza para fazer entregas hoje é o Delivery Center. Porém, os problemas enfrentados continuam: "Desanimada porque eles pagam tudo errado", diz. Além disso, a entregadora afirma que a empresa não repassa o dinheiro de caixinha destinado aos entregadores pelos clientes.

Foto: Wesley Passos / Democratize

Além do descaso dos aplicativos, o machismo e a pandemia


A falta de diálogo com os aplicativos de entrega não é o único problema enfrentado por Elisângela. Ao seu redor, o desemprego causado pela pandemia de coronavírus já é realidade. Segundo a motogirl, esse aumento fez com que muita gente começasse a trabalhar com entregas - "Todo mundo precisa sustentar a sua família".


Ao mesmo tempo, quando precisou da ajuda do governo federal, Elisângela encontrou a porta fechada. Ela aguarda a autorização do Auxílio Emergencial desde o mês de março - ele segue em análise quatro meses depois: "Olho todos os dias para ver se liberam".


Apesar do temor causado pelo perigo de ser infectada pelo vírus, Elisângela enfrenta a realidade de ter toda a renda de sua casa baseada em suas entregas. Por isso, optou por fazer tudo sozinha - sem a ajuda dos aplicativos. "Como eu fui bloqueada, a opção que eu estou tendo agora é divulgar o meu trabalho e poder atingir outras pessoas, não somente de alimentação, mas também de outros produtos", diz.


Ela conta com um perfil no Instagram chamado Princesinha das Entregas, onde oferece serviços gerais de coleta e entrega em toda a cidade.

Foto: Wesley Passos / Democratize

Entretanto, um dos maiores riscos para a sua profissão é o machismo - "Muitos pensam que mulheres possuem algumas vantagens como entregadora, mas não... tem muito assédio", lamenta. A motogirl diz que muitos homens acabam mexendo com ela no trânsito, a ponto de ter optado por não colocar seu telefone de entregas na mochila, com receio de receber mensagens e ligações impróprias.


Tendo de trabalhar no período noturno, o medo duplica: "Dá até medo. Preciso trabalhar de noite, e fico com medo de assaltos e dos assédios". Elisângela enfrenta todos esses obstáculos para conseguir ganhar, no máximo, R$100 por dia. Desse valor, boa parte serve para custear a gasolina. "Às vezes eu trabalho com fome", diz, sendo que uma das maiores dificuldades que enfrenta em sua rotina é não poder levar um lanche para a sua filha no final do dia.


Mesmo diante de tantos desafios, Elisângela segue acreditando que apenas a luta coletiva pode melhorar as condições de vida dos entregadores. A motogirl esteve presente em todos os breques, e afirma não ter a menor intenção de abandonar a paralisação até a categoria conquistar as suas reivindicações.

174 visualizações

Receba nossas atualizações

  • Ícone do Facebook Branco
  • Ícone do Twitter Branco

© 2020 Todos os direitos Reservados