• Francisco Toledo

Ação policial de domingo mostrou que Doria não tem controle da instituição

Desde o dia 15 de março a cidade de São Paulo, assim como o restante do país, vive uma intensificação da polarização marcada por protestos bolsonaristas. Em boa parte, essas manifestações são marcadas pela intolerância contra jornalistas, oposição, ataques constantes aos poderes da República, além de pedidos de reabertura da economia diante da pandemia de coronavírus, contrariando as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS).


Em São Paulo, os protestos que se traduzem em carreatas aos finais de semana na região da Avenida Paulista, já passaram pela residência do governador João Doria (PSDB), com ameaças explícitas e pedidos de impeachment contra o tucano, além do conhecido episódio do buzinaço em frente a um hospital. Em nenhum momento a Polícia Militar efetuou prisões ou interferiu pela ordem.


Mas neste final de semana foi diferente. Pela primeira vez em dois meses, o protesto bolsonarista, que reuniu cerca de 400 pessoas, encontrou de frente uma oposição na Avenida Paulista. Organizada pelas torcidas dos clubes Palmeiras, Corinthians, Santos e São Paulo, a manifestação em defesa das instituições e da democracia começou antes do ato bolsonarista, com centenas de torcedores caminhando em direção ao vão livre do Masp ao meio dia.


Torcedores do Corinthians foram maioria no ato - Foto: Wesley Passos / Democratize

Conforme o ato se estabelecia no quarteirão, mais manifestantes chegavam. Da mesma forma, o aparato militar se intensificava.


Com um quarteirão de distância, em frente ao prédio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), os primeiros manifestantes em defesa do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) chegavam. A Polícia Militar também estava lá, mas com um diferente propósito. Em determinado momento, policiais da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) ajudavam os manifestantes a posicionar o caminhão de som. Conforme os bolsonaristas chegavam, o clima de confronto era claro. "A polícia tá com a gente", dizia um motociclista a outro manifestante, mencionando o protesto pró-democracia como "pago".


Do outro lado a preocupação era outra. Um jovem de preto, conforme caminhava em direção ao vão livre do Masp, demonstrava preocupação em contrair o coronavírus. "Só não quero pegar o coronavírus", dizia aos colegas quando questionado sobre a possibilidade de conflito entre as manifestações.


E de fato, o contraste era claro. O ato organizado pelas torcidas era recheado de pessoas que viviam fora da região central da capital. Um dos manifestantes, enquanto comprava água na banca de jornal, dizia ser a primeira vez que visitava a Avenida Paulista. No lado bolsonarista, a condição e a realidade financeira era diferente. Em sua enorme parcela branca e acima dos 50 anos, a manifestação era encabeçada por pequenos empresários da capital.


O esforço da PM para evitar o conflito não foi suficiente


Conforme as pessoas chegavam, a PM se preparava para evitar o encontro entre os dois atos. Dois cordões foram formados: um em frente ao ato pró-democracia, outro no ato bolsonarista. Não adiantou.


Homem faz sinal de arma ao lado de bandeira neonazista - Foto: Wesley Passos / Democratize

Um homem empunhando a bandeira do Setor Direito, ou Pravyy Sektor em ucraniano, partido de extrema-direita considerado neofascista, causou a primeira confusão. Militantes antifascistas furaram o bloqueio do ato bolsonarista e questionaram a bandeira por parte do bolsonarista. Em pouco tempo, a confusão generalizada começou e a Polícia Militar interviu com bombas de efeito moral. Porém, a situação foi controlada rapidamente. Os antifas foram retirados do local, mas um jornalista ficou ferido na perna por causa da ação policial. Uma manifestante bolsonarista também ficou ferida, após estilhaços atingirem as suas costas.


Mas não adiantou. O mesmo homem que empunhava a bandeira do Setor Direito continuou a discutir com os manifestantes pró-democracia. Outra confusão quase começou após uma discussão entre ele e um rapaz que usava uma camiseta com o rosto de Malcolm X, famoso ativista negro norte-americano dos anos 60. Dessa vez não houve interferência policial para separar a discussão.


Do outro lado, a manifestação pró-democracia ganhava corpo. As torcidas do Santos e São Paulo chegaram e, em um primeiro momento de tensão, as lideranças dialogavam sobre como dividir o mesmo espaço sem conflito entre as torcidas. E deu certo. "A causa é muito maior", diziam, "é pela democracia". Mas não foi o suficiente para impedir uma primeira bomba de efeito moral no quarteirão do protesto. O motivo: uma mulher com um taco de baseball ameaçou os manifestantes e, para separar e evitar atritos, a polícia atacou. Foi breve, e a manifestante foi retirada.



Quando questionada sobre portar uma arma branca em uma manifestação de oposição, ela respondia ironicamente, ameaçando os jornalistas ali presentes. A reação do policial ao retirar a bolsonarista foi criticada nas redes sociais, por dar a entender uma simpatia entre a instituição militar e esse grupo político. "E se fosse um manifestante do outro lado com um taco de baseball, como seria a reação?", questionava ao filmar o momento. Sem respostas.


Poucos minutos depois, outro manifestante bolsonarista causou atritos no ato pró-democracia. E dessa vez foi pra valer. Fardado como militar, ele foi retirado e protegido por policiais, e enquanto os antifas e torcedores tentavam avançar, mais bombas de efeito moral e balas de borracha foram disparadas. A partir dali o ato democrático se desintegrou, transformando-se em um campo de batalha com policiais.


Policiais disparam contra ato democrático - Foto: Wesley Passos / Democratize

Foram aproximadamente duas horas de conflito, com a polícia avançando até o final da Paulista, na região da Praça do Ciclista. Isso ocorreu mesmo após a dispersão dos manifestantes, que em sua grande maioria já haviam ido embora da avenida. Outra parte montou barricadas e atirou pedras contra policiais, revidando as bombas de gás lacrimogêneo, balas de borracha e bombas de efeito moral.


Ao final da dispersão, policiais ainda miraram contra um homem que vestia roupa vermelha. "Pega o de vermelho, pega o de vermelho", dizia um dos policiais da Tropa de Choque. O rapaz correu no meio dos profissionais da imprensa e não foi detido.


Ainda assim, um outro homem foi preso pelos policiais nas proximidades do ato bolsonarista, que continuava normalmente e sem detenções. Ele havia tomado um tiro de bala de borracha no peito. Durante a sua prisão, policiais da Rocam avançaram sobre o nosso fotógrafo, Wesley Passos. Outra ameaça foi feita enquanto tentamos registrar o momento da detenção.



Enquanto isso, o ato bolsonarista continuava intacto e com escolta policial. Mesmo com diversas ameaças contra o governador João Doria, com faixas e ofensas, a ação militar se limitou em organizar o trânsito no quarteirão que o protesto ocupava.


Ação mostrou inabilidade do governador com a sua própria polícia


Após a repercussão negativa da ação policial, o governador João Doria tentou minimizar o ocorrido no Twitter. Em nota, ele afirmou que a atitude da PM serviu para proteger "ambas as manifestações". Já o secretário executivo da Polícia Militar, Coronel Camilo, afirmou que o bolsonarista que carregava a bandeira do Setor Direito foi a causa da confusão. Mesmo assim, o homem não foi detido pela polícia ou sequer advertido. Sobre a manifestante que usava o taco de baseball para ameaçar o ato pró-democracia, o secretário disse para a imprensa que o objeto só poderia ser caracterizado como arma branca se houvesse agressão de fato.


A diferente abordagem causou críticas nas redes sociais e elevou o atrito entre o governador tucano e a sua instituição de segurança pública. Para muitos especialistas, trata-se de uma carta branca dada pela Polícia Militar de São Paulo para os excessos de um lado, enquanto as torcidas organizadas e antifascistas foram atacados de forma exagerada.


Como reação, diferentes setores de esquerda já divulgam um novo protesto no domingo, dia 7, contra a repressão policial e pela democracia. A manifestação deve ocorrer novamente na Avenida Paulista e, mais uma vez, dividir o mesmo espaço com o protesto bolsonarista. Cabe esperar como será a reação policial desta vez, conforme a oposição ao governo federal cresce cada vez mais entre a população.



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